novembro 25, 2019
0

Atrás das grades, assassinos em série são assediados por mulheres que vivem na pele a chamada “Síndrome de Bonnie e Clyde”, em que o desejo sexual é maior que o medo do passado desses condenados.


Atrás das grades, homens perigosos, condenados por terem cometido assassinatos em série – e temidos pela população – são assediados e desejados por uma específica fração de pessoas que sente atração, admiração e desejo por esses criminosos. Assim foi com Francisco de Assis Pereira, que ficou conhecido como o Maníaco do Parque. Depois de assassinar dez garotas e violentar outras 11 no Parque do Estado, em São Paulo, entre 1997 e 1998, ele chegou a receber em torno de mil cartas só no primeiro mês de sua estadia no presídio onde cumpre pena.

Hibristofilia é o termo usado pelos criminologistas – e não os cientistas – para descrever essa atração sexual por assassinos violentos. A primeira pessoa a fazer referência ao comportamento foi o psicólogo e sexólogo John Money, nos anos 50. Para ele, a hibristofilia – coloquialmente conhecida como “Síndrome de Bonnie e Clyde”, fazendo referência ao casal de criminosos que cometia assaltos pelo interior dos Estados Unidos nos anos 30 – tratava-se de uma patologia, ou seja, um dos tipos mais raros de parafilias sexuais (preferências anormais e doentias ou verdadeiros transtornos) que aconteciam, geralmente, com mulheres heterossexuais.

Autora de “Women Who Love Men Who Kill” (“Mulheres que Amam Homens que Matam”, em tradução livre), a escritora norte-americana Sheila Isenberg entrevistou dezenas dessas mulheres e concluiu que o perfil predominante é o de “meninas perdidas”, moças “danificadas” por infâncias dolorosas. Uma parcela significativa delas tinha um histórico de abuso e relacionamentos violentos e, por isso, vivia em um mundo de fantasia, considera a autora.

Por que, então, mulheres que foram abusadas no passado são atraídas por esses homens? Segundo Isenberg, “não é porque os homens são violentos, mas pelo contrário”. “Esses homens são seguros. Se ele está vivendo atrás das grades, ele não pode machucá-la”, explica.

Essa atração dá às mulheres uma visão distorcida da personalidade dos criminosos, completa a escritora. “As mulheres estão sob uma ilusão. O que elas veem como ‘amor’ não é baseado na realidade, mas em suas fantasias, distorções, necessidades psicológicas. O ‘amor’ entre a mulher e um assassino nunca pode ser real. Não é o que poderíamos chamar de ‘amor companheiro’, mas uma ilusão sobre o amor”, explica.

Resultado de imagem para HibristofiliaNo Brasil e no mundo, o sucesso de detentos perigosos chama atenção. Enquanto o atirador James Holmes – que matou 12 pessoas no Colorado, nos Estados Unidos, em 2015 – é chamado de “fofo” e “sensual” no Twitter, uma jovem sueca se diz apaixonada por Anders Breivik, autor de um massacre na Noruega em 2011. No Brasil também não faltam exemplos. O vigilante Tiago Henrique Gomes da Rocha, que confessou ter matado 39 pessoas, entre 2011 e 2014, em Goiânia, e Marcos Antunes Trigueiro, que ficou conhecido como o Maníaco de Contagem, são bastante assediados pelas brasileiras.

O caso do Maníaco do Parque chamou também atenção de Gilmar Rodrigues, autor do livro “Loucas de Amor: Mulheres que Amam Serial Killers e Criminosos Sexuais”. Para concluir a obra, ele entrevistou mais de cem pessoas e também identificou uma personalidade de baixa maturidade emocional nessas mulheres. “Elas procuram modelos de afetividade negativos, parecidos com os que tiveram. Muitas das que se relacionam com esse tipo de homem têm uma semelhança muito grande com as próprias vítimas. São presas fáceis”, afirma.

O contrário, homens que se apaixonam por mulheres com fichas criminais, é mais raro, porque, segundo Rodrigues, os delitos cometidos por mulheres, em geral, são menos violentos. “Quando a mulher faz alguma coisa, o marido pode estar envolvido, e, geralmente, eles abandonam, não são fiéis”, diz.

Outros fetiches:

Mecanofilia: Atração obsessiva por automóveis ou máquinas
Coprofilia: Atração pelo uso de fezes nas relações sexuais. No caso da urina, urolagnia
Tricolofilia: Sentir-se atraído pelo cabelo (cheiro ou toque)
Acrotomofilia: Excitação por pessoas com membros amputados
Insuflação: Sentir atração por soprar orifícios de outras pessoas
Dendrofilia: Excitação por arvores e plantas. No caso de animais, zoofilia
Necrofilia: Atração por cadáveres
Simforofilia: Excitação sexual após presenciar uma tragédia
Oculofilia: Excitação ao lamber o globo ocular de outra pessoa ou ter seus olhos lambidos
Latronudia: Excitação sexual ao se despir para médicos


Etimologia:

O termo “hibristofilia” é derivado da palavra grega “hubrizein”, que significa “cometer um ultraje contra alguém”, que, por sua vez, é derivada de “hubris” e “philo”, que significa “ter uma forte afinidade ou preferência por”.

Traumas e abusos podem ser gatilho para parafilias
Fantasias e fetiches sexuais ‘anormais’ têm seu auge entre 15 e 25 anos, diz especialista

As fantasias são práticas que aguçam a imaginação e o desejo e contribuem para o prazer sexual. Já as parafilias são preferências sexuais anormais, doentias, bizarras e pervertidas que a pessoa, ao longo da vida, desenvolve de forma lenta e gradual, segundo o psiquiatra forense e diretor da Associação Médica de Minas Gerais Paulo Roberto Repsold.
Resultado de imagem para HibristofiliaEm geral, as parafilias derivam de uma interação de fatores. “Traumas na infância, algum abuso ou violência sexual e física e mais alguns estímulos formam o adulto com essa preferência sexual doentia, uma compulsão mesmo”, diz. A ciência ainda não sabe ao certo, mas Repsold acredita que o desenvolvimento psicológico também fica comprometido nesses casos porque as regiões do cérebro ligadas às funções de prazer podem apresentar alterações.

Dos transtornos parafílicos, a pedofilia é o mais comum, conforme o livro “Compêndio de Psiquiatria – Ciência do Comportamento e Psiquiatria Clínica”. De acordo com a obra, as parafilias parecem ser, em grande parte, condições masculinas. Mais de 50% de todos os transtornos parafílicos têm seu início antes dos 18 anos e atingem seu auge entre 15 e 25 anos e depois declinam de maneira gradual. Pacientes nessa condição frequentemente têm de três a cinco parafilias, seja de forma concomitante, seja em momentos diferentes. “Essas pessoas costumam ter outra comorbidade, como transtornos de ansiedade. São depressivos ou dependentes de algum tipo de substância lícita ou ilícita”, afirma o psiquiatra.

No entanto, a 5ª edição do “Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais” (DSM-5, na sigla em inglês) sugere que a designação de parafilia seja reservada para aqueles com idades acima dos 18 anos, para evitar patologizar a curiosidade sexual e a experimentação ocasional na adolescência.

No caso das histórias de amor entre serial killers e “pessoas comuns”, Repsold diz que pacientes com hibristofilia têm noção clara de que seu comportamento é “diferente”. “Não é um amor platônico, elas realmente querem se envolver e sentem uma adrenalina por estar com quem pode ser capaz de matar alguém. Mulheres parafílicas são doentes, então essa é uma relação condenada ao fracasso”, diz.

No Brasil, recentemente, duas situações chamaram atenção: os fatos de o goleiro Bruno ter saído da cadeia ao lado da mulher, Íngrid Calheiros, e de o empresário e ex-ator Guilherme de Pádua (assassino confesso da atriz Daniella Perez) ter se casado pela terceira vez. O escritor Gilmar Rodrigues não vê indícios de transtorno, pare ele, ambos os relacionamentos podem ter sido motivados mais pela fama do que pelos crimes. A mulher do ex-ator, a estilista mineira Juliana Lacerda, afirmou em entrevista ao jornal “Extra” que já esperava receber críticas pelo casamento.

Ainda tabu, nos EUA, relação é punida por lei
A atração pelos criminosos em penitenciárias ainda é mal-documentada, exceto nos Estados Unidos, onde é punível por lei. O criminologista e professor da Faculdade de Educação Continuada da Universidade de Montreal, no Canadá, Philippe Bensimon foi um dos responsáveis pelo estudo que analisou 300 casos divulgados na mídia, de funcionários (guardas prisionais, médicos, criminologistas, psicólogos, enfermeiros) se apaixonando por criminosos, entre 2005 e 2015. Ele descobriu que 70% dos envolvidos nesses casos eram mulheres. Cerca de 4% das pessoas que trabalhavam nos presídios foram afetadas pela hibristofilia, diz o estudo.
Resultado de imagem para Hibristofilia
“Todos foram severamente punidos com demissão permanente do serviço público”, afirma. De acordo com as leis federais dos Estados Unidos, relações sexuais entre funcionários e detentos são consideradas abuso de poder.
Segundo Bensimon, enquanto as mulheres presas representam 35% da população carcerácia, nos casos de má conduta sexual elas são 72%. Por outro lado, o número de relações inadequadas entre funcionários homens e detentas é estatisticamente menor e parece ser ainda mais “aceito” na subcultura de prisão.

Porém, em muitas administrações de serviço público, o assunto é tabu e negado no topo da hierarquia. Além disso, o cenário de solidão também se mostra propício à criação desses laços. Ele acredita que ninguém está imune, mas afirma que “devem ser tomadas medidas preventivas para reconhecer o problema, e, sobretudo, não ocultá-lo sob o tapete das aparências”.














Com a Informação O Tempo.

0 Comentários :

Postar um comentário