outubro 13, 2019
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Uma série de crimes ocorrido em Porto Alegre no século XIX e que ainda hoje mexe com o imaginário das pessoas não só da cidade bem como de todo o Brasil.

Esses crimes que ocorreram entre os anos de 1863 e 1864, além dos assassinatos de várias pessoas, uma história não confirmada que envolveria a confecção de linguiças com a carne das vítimas. Essa última parte, não confirmada por boa parte dos pesquisadores, é crença de muitos outros que afirmam que o fato ocorreu de verdade.

O evento ficou conhecido internacionalmente como “Os Crimes da Rua do Arvoredo”, devido ao local onde foi perpetrado e também como “O maior crime da Terra” pelos jornais de vários lugares do mundo. Até mesmo o pesquisador Charles Darwin escritor do livro “A origem das espécies”, enquanto passava pela Inglaterra soube do caso e escreveu em um caderno de anotações que levava consigo, uma frase que resume boa parte da sensação que a opinião pública tinha sobre o caso: “Há um Chacal adormecido em cada homem”.

O trio do terror da Rua do Arvoredo

Apesar de ter sido chamado na época como: “O Crime de José Ramos”, devido a seu maior perpetrador e o provável chefe do trio possuir esse nome, mas ele teve participação também de sua esposa Catarina Paulsen e do açougueiro Carlos Klaussner, vamos tentar conhecer um pouco do perfil dos três assassinos.

José Ramos

José Ramos era catarinense de nascimento, filho mais velho de Manoel Ramos e Maria da Conceição, um soldado descendente de portugueses que havia combatido durante a Guerra dos Farrapos no batalhão de infantaria de Bento Gonçalves e uma indígena. O seu pai havia desertado da tropa farroupilha e fugido para Santa Catarina levando sua esposa.

Violento, Manoel Ramos ataca a sua esposa e por medo de que ele causasse algum ferimento a sua mãe, José Ramos intervém na briga, dando uma facada em seu pai e causando-lhe a morte alguns dias depois.

Com tudo isso, José Ramos não pode permanecer no estado de Santa Catarina por muito mais tempo e teve que se deslocar até a cidade de Porto Alegre, onde fixou residência. Apesar de seu passado criminoso, conseguiu um emprego como inspetor da polícia da cidade e alugou um local para viver. Uma casa na rua conhecida como Rua do Arvoredo, local que hoje é a Rua Fernando Machado, 707. Nessa ocasião ele conheceu o açougueiro alemão Carlos Klaussner.

A vida como policial de carreira não durou muito já que ele foi surpreendido tentando degolar Domingos José da Costa, um homem que havia sido preso em Vacaria em 1862 e que era mais conhecido como Campara. José Ramos argumentou em sua defesa que ele tentava escapar no momento em que atacou o prisioneiro, mas de nada adiantou a sua defesa, em seguida ele foi expulso da polícia, mas devido a conhecer o delegado Dario Callado, passou a ocupar a função de informante da corporação.

Um fato curioso sobre a vida de José Ramos é que ele era muito conhecido pela classe mais alta da cidade de Porto Alegre. Comparecia de forma frequente a eventos luxuosos e de alta sofisticação. Era visto em óperas, várias apresentações teatrais, sendo figura frequentemente presente no recém-inaugurado Theatro São Pedro. Apesar de muitas pessoas que o conheceram no ofício de policial considerarem que ele era um policial violento, ao mesmo tempo o consideravam um cavalheiro gentil e apreciador das artes.

Catarina Paulsen

Catarina nasceu em 1837 e teria vindo diretamente da Hungria para fugir da pobreza que existia no país. Sua família possuía origem alemã e vivia no território conhecido como a Transilvânia em uma aldeia com seus pais e dois irmãos.

Em 1848, durante o evento que ficou conhecido como a Revolução Húngara de 1848, teve toda a sua família assassinada por parte dos soldados inimigos.

Com apenas 15 anos, casou-se com Peter Paulsen e por conselho de conhecidos vieram para o Brasil tentar uma vida melhor. Durante a viagem, seu marido se suicidou deixando-a sozinha para terminar a viagem. Ela chegou em Porto Alegre apenas em 1857, já com 20 anos de idade, e conheceu José Ramos em 1863, já com 26.

Carlos Klaussner

Carlos Klaussner era um imigrante alemão que chegou ao Brasil em 1859. Era solteiro e alugou para o casal José Ramos e Catarina Paulsen o local onde ficava o seu antigo açougue. Na época dos crimes, possuía um açougue atrás da igreja Nossa Senhora das Dores, na rua que era conhecida como a Rua da Ponte, hoje conhecida como Rua Riachuelo.

Desde que havia chegado ao Brasil iniciou o ofício de açougueiro, mas o fato de ser solitário fez com que José Ramos e sua esposa pudessem se aproximar dele de forma fácil até que em pouco tempo José Ramos se tornou o seu ajudante no açougue.

Segundo a versão mais conhecida desta história, Carlos e José eram sócios em um dos mais nefastos negócios da história do Brasil: as bizarras linguiças de carne humana.

Modus Operandi dos Crimes da Rua do Arvoredo

Segundo entrou para a história, os nossos personagens José Ramos, Catarina Paulsen e Carlos Klaussner se uniram para realizar um dos crimes mais bizarros já registrados. O modo de agir era quase sempre o mesmo.

José e Catarina ficavam responsáveis por atrair os homens que seriam atacados. Catarina não falava muito bem o português, mas costumava atrair os homens, de preferência estrangeiros, em um local chamado Beco da Ópera, conhecido atualmente como Rua Uruguai, e os levavam para a Rua do Arvoredo.

No local, entrava em ação José Ramos, que roubava as vítimas, as matava degoladas. Em seguida as azaradas vítimas eram esquartejadas e descarnadas. A carne era enviada para Carlos Klaussner que a moía, misturava com outros produtos e transformava em linguiça. O produto era vendido ao público em geral e os ossos eram dissolvidos em ácido ou queimados. 

Segundo a versão mais famosa, a ideia de iniciar com a macabra prática foi de Carlos Klaussner, que acreditava que seria a melhor forma de sumir com as provas que existiam contra eles eliminando os corpos. Segundo a maioria das fontes, nenhum dos três assassinos se alimentava com o produto apesar de terem provado em certa ocasião.

Desaparecimentos em Porto Alegre

Ninguém sabe com certeza a quantidade de vítimas o que foram atraídas por Catarina, mas acredita-se que podem ser mais de 10 homens. Devido à época em que os crimes foram registrados, se torna difícil dispor de dados precisos, e apesar dos números oficiais, muitas pessoas acreditam que os números reais são muito maiores.

Para se ter uma ideia, um dos números mais citados quando se fala no número de vítimas dos crimes da Rua do Arvoredo, cita-se que quando presos, e depois de passar um tempo na cadeia, Catarina resolveu confessar seus crimes à polícia. Nesta ocasião ela disse que na verdade haviam sido mortos um total de 9 pessoas, mas muitos acreditam que seriam ainda mais.

A morte de Carlos Claussner

Vários desaparecimentos de homens estrangeiros começaram a despertar o interesse das autoridades da cidade, fazendo com que as forças de segurança começassem a investigar e a fazer perguntas. Com o medo crescente das pessoas em relação aos desaparecimentos e a procura por parte das autoridades de uma resposta para o que estava acontecendo, Carlos Klaussner começou a ficar com medo e decidiu fugir para o Uruguai. Ele deu a desculpa que estava infeliz em Porto Alegre, talvez por medo do que poderia ocorrer com ele, já que José Ramos era um homem muito violento.

A possibilidade da fuga de Carlos Klaussner fez com que José Ramos se apavorasse e decidisse de forma apressada que o ex-parceiro de crimes deveria morrer. Assim foi feito, e o corpo do infortunado Klaussner foi enterrado no quintal da casa do casal.

Para justificar o desaparecimento de Klaussner, José afirmava que ele havia ido em viagem para comprar gado, ou para o Uruguai, ou teria ido embora por alguns outros motivos. José teria inclusive forjado documentos comprovando uma suposta venda do açougue realizada por Klaussner para ele próprio.

O último crime

No início de 1864 ocorre o último crime do casal José e Catarina. José Inácio de Souza Ávila um caixeiro viajante e Januário Martins Ramos da Silva um comerciante português foram dados como desaparecidos.

Algumas pessoas que tinham relações comerciais com os dois homens, procuraram a polícia para relatar o desaparecimento. Em pouco tempo descobriu-se algumas testemunhas que haviam visto os dois homens na casa de José Ramos no dia anterior.

Com isso, ele foi chamado para prestar esclarecimentos na delegacia, perguntado sobre o destino de tais homens ele limitou-se a dizer que os dois teriam ido para a cidade de São Sebastião do Caí. Essa informação não satisfez aos representantes da polícia que foram até a Rua do Arvoredo e lá encontraram um cenário extremamente macabro.

Os assassinos e as provas

Foram descobertos vários pedaços de um corpo humano enterrado no porão da residência, esses restos foram identificados como sendo do ex-sócio Carlos Klaussner, o antigo dono do açougue da Rua da Ponte, que José afirmava ter comprado.

Em um poço que existia na casa e estava abandonado, existiam os corpos de Januário e José Inácio além de um cão. Ao que tudo indica o cão era do jovem José Inácio. Fontes afirmavam que o animal havia ficado na porta da casa de José Ramos, latindo e uivando, quase como se esperasse o seu dono que nunca sairia do local.

Condenação

O delegado Dario Callado prendeu o casal e por ser também o Juiz de direito da época, moveu processo contra José Ramos e Catarina Paulsen. Os dois foram condenados. 

José Ramos foi sentenciado a pena de morte por enforcamento pelos crimes de latrocínio. Sua pena foi posteriormente alterada para prisão perpétua pelo Imperador Dom Pedro II, que tinha resistência à aplicação de pena capital desde um erro judiciário que havia ocorrido em 1855, onde foi executado Manuel da Mota Coqueiro Ferreira da Silva, que ficou conhecido A Fera de Macabu. Ramos negou a autoria dos crimes até sua morte, cego e sozinho na Santa Casa de Porto Alegre em 1893.

Catarina Paulsen foi condenada a 13 anos de prisão, sendo liberta em 1877. Morreu sozinha em um hospício, em 1891.

A origem da história das linguiças de carne humana

Segundo o que se conta, existiram três processos criminais contra o casal. Um deles versou sobre o assassinato de Carlos Klaussner, o segundo fala sobre a morte de José Inácio e Januário Martins e o terceiro falaria sobre os outros supostos crimes e a confecção de linguiças com os corpos das vítimas.

Essa história surgiu após Catarina ter se convertido para a seita comandada por Jacobina Mentz Maurer, os Mucker. A prisão ou a conversão para os Mucker fez com que Catarina se arrependesse e confessasse a existência de outras pessoas mortas e o modo como o grupo de assassinos operava. As histórias envolvendo a seita dos Muckers é outro evento emblemático na história do Rio Grande do Sul, ainda envolto em contradições. Aqui no blog Noite Sinistra uma matéria intitulada "O massacre dos Muckers e as assombrações no morro Ferrabraz" foi postada em 2013, onde os amigos e amigas podem conhecer um pouco mais dessa história tão marcante e trágica.

Catarina confessou também que depois da morte de Carlos Klaussner, que era responsável pela fabricação das linguiças, não foi mais possível que se fizesse o produto. E por isso foi mais difícil de esconder o crime.

Segundo o autor e historiador Décio Freitas que escreveu o livro “O Maior Crime da Terra”, falando dos Crimes da Rua do Arvoredo após várias pesquisas históricas, o terceiro processo desapareceu e os que existem e estão com folhas faltando e são escritos em um português arcaico que torna difícil a leitura.

Suspeita-se que as folhas foram retiradas de forma proposital para evitar que a população da cidade se tornasse temerosa quanto ao consumo de embutidos e para que as pessoas não se apavorassem com a bizarrice que havia acontecido.

Algumas pessoas tentam explicar o desaparecimento do terceiro processo e para isso existem duas prováveis hipóteses: a primeira delas diz que em 1972 o Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul precisava abrir espaço e começou a se desfazer de parte da documentação mais antiga, outra teoria diz que o terceiro processo foi subtraído do Arquivo Público do Estado do Rio Grande do Sul por motivos e vias ilegais.

Outra versão

Outros pesquisadores acreditam que na verdade a história das linguiças foi apenas uma invenção feita por pessoas que queriam enfeitar o caso e causar medo na população, no mesmo formato das hoje conhecidas lendas urbanas.

Para essas pessoas, o crime foi bem mais simples e apenas três pessoas morreram, Carlos Klaussner não seria um dos participantes do crime, mas apenas uma vítima, o comerciante português Januário Martins teria sido morto por motivos financeiros e o caixeiro viajante José Inácio por estar no lugar errado e na hora errada.

Caso inconcluso

Apesar de tudo apontar para que a história sinistra sobre os crimes da Rua do Arvoredo seja a mais provável, não se tem certeza absoluta sobre a prática de José Ramos, Catarina Paulsen e Carlos Klaussner ser real.

Argumentos que justificam tanto a existência quanto a inexistência das supostas linguiças de carne humana são defendidas e devido ao suposto desaparecimento de um processo e algumas folhas dos processos anteriores impossibilitam que qualquer resposta possa ser dada.

Inspiração para um longa-metragem

Em cima desta história, o diretor Guto Parente teve a ideia de filmar “O Clube dos Canibais”. O filme conta história de Otávio e Gilda, um casal rico da elite brasileira que tem o hábito de comer seus empregados. Otávio possui uma empresa de segurança privada e é um membro notável do Clube dos Canibais, uma organização secreta formada por homens poderosos adeptos do canibalismo. Quando Gilda acidentalmente descobre um segredo de um poderoso deputado e líder do Clube, a vida dela e a de seu marido passam a correr perigo.















Com a Informação Noites Sinistra.

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