Isso tem acontecido como resultado do progresso das técnicas médicas. Hoje, é possível “ressuscitar” — trazer de volta à vida — algumas pessoas dadas como mortas em acidentes, males súbitos, afogamentos ou mesmo no decorrer de cirurgias.
Você pode ser considerado morto e depois “trazido de volta” por equipamentos adequados, massagens cardíacas, aparelhos de desfibrilação, injeções. Se o atendimento for muito rápido, você pode voltar.
Não são poucos os que têm voltado da morte nos últimos anos. De acordo com uma estimativa, oito milhões de pessoas já passaram por essa experiência de ir e voltar. Dessas, cerca de 18% retornaram com algo para contar.
Experiências interessantes aconteceram com essas pessoas durante os minutos em que os aparelhos as deram como mortas. Esses breves períodos não foram para elas momentos perdidos em total inconsciência, mas um espaço de tempo ativo, em que vivenciaram algo.
Alguns médicos e pesquisadores começaram a entrevistar essas pessoas, os relatos são bem detalhados. O que elas contam vem sendo transformado em estatísticas nos institutos de pesquisas psíquicas, e seus depoimentos passaram a ser conhecidos como NDE (Near Death Experiences), ou seja, Experiências de Quase-Morte.
O que elas disseram sobre o tempo em que estiveram “mortas”?
A "experiência central" durante um estado de quase morte varia de acordo com a etnia e a religião. Para os japoneses, imagens que remetem a campos de flores ou ao Rio Sanzu (rio dos mortos) parecem surgir com frequência.
Seus relatos não são idênticos, mas grande parte descreve acontecimentos semelhantes, com pontos comuns. O primeiro deles é terem ouvido nitidamente os médicos as declararem mortas. A seguir, inicia-se um som desconfortável, como um zumbido, e então vem a sensação de estar em movimento.
A noção de estar fora do próprio corpo torna-se mais clara nesse ponto. Surge algo como um túnel escuro, e, segundo vários depoimentos, é possível observar o corpo físico a certa distância, como quem flutua. Também se pode acompanhar as tentativas de ressuscitamento, os esforços dos médicos para trazer a vida de volta.
Algumas pessoas descrevem a percepção de continuarem tendo um corpo, apesar de tudo. Outras sentem-se transformadas em “mente pura”, sem corpo. Nesse ponto, surgem parentes e amigos já falecidos; em seguida, algo como um ser “feito de luz”, e foi relatada como uma experiência tridimensional e bastante vivida.
O conjunto das NDE é descrito como agradável, e geralmente não há o desejo de retornar à matéria, mas isso acaba acontecendo quando as tentativas de ressuscitamento são bem-sucedidas. Então, ocorre uma sensação descrita como um “surgimento”, e a pessoa se compreende no corpo físico outra vez.
O túnel escuro, o ser de luz, o convite ao retrospecto da própria vida, esses têm sido pontos comuns a muitos depoimentos, porém a forma de interpretá-las varia um pouco. Há quem identifique, por exemplo, o ser de luz com alguma figura do imaginário religioso a que esteja culturalmente acostumado. Para outras pessoas, não ocorre essa associação.
A projeção na direção do astral consta de praticamente todos os relatos, assim como a sensação de estar vendo o próprio corpo de fora, como quem observa outra pessoa.
Esse conjunto de depoimentos constitui a OBE — Out Body Experience — e vem sendo sistematizado em centros de pesquisa especializados. Segundo o pesquisador Kenneth Ring, os relatos deixam claro que as OBE que acontecem na Quase-Morte são bem diferentes de um sonho. Dizem os depoentes que se trata de uma experiência vívida, nítida, e bem diversa do sonhar.
Outra descoberta de Kenneth Ring foi relativa aos estágios da OBE. Ele observou que os estágios iniciais — som de zumbido, sensação de desdobramento, túnel — são referidos mais frequentemente. Mas nem todos experimentaram as fases seguintes.
A sensação de paz que se segue ao desligamento parcial do corpo foi relatado por 60% dos depoentes, mas só 37% passaram ao estágio posterior — túnel, clara sensação de desdobramento e projeção astral.
Cerca de 25% dos entrevistados trouxeram alguma memória dessa projeção. Declararam haver entrado numa “vasta escuridão”, uma jornada por “um espaço escuro, sem forma ou dimensão”. Um gigantesco vazio, um “nada”, mas uma “escuridão cheia de paz”.
Superada essa amplidão, 15% das pessoas em quase-morte alcançaram o estágio seguinte: a luz, geralmente ao final de algo como um túnel brilhante. Em alguns casos, essa luz veio junto com a sensação de uma “presença” de algum tipo de voz sem corpo visível dizendo à pessoa que retornasse ao corpo físico.
Apenas 10% dos depoentes chegaram ao estágio de “entrar na luz”, ou de conseguir observar algo do “outro mundo”, onde reencontraram entes queridos.
Mas outros pesquisadores, Noyes e Kletti, fizeram observações curiosas. Eles notaram que parte desses acontecimentos durante as OBE eram descritas mais frequentemente por pessoas que tinham a consciência de que estava ocorrendo a própria morte do que pelos indivíduos que não chegaram a ter essa percepção de modo claro.
Dessa forma, Noyes e Kletti observaram a tendência de os entrevistados relatarem experiências que confirmavam suas próprias expectativas em certo grau. Em outras palavras, viram aquilo que sempre esperaram ver: seres de luz, uma experiência de ser salvo etc.
Isso também foi percebido em relação à perda de identidade pessoal durante o desdobramento e a projeção no astral. A sensação de ser “outro”, surgida a partir da situação de desdobrar-se, flutuar e ver o próprio corpo. Os pesquisadores interpretaram isso — embora seja apenas uma possibilidade — como esforço de fuga semiconsciente da situação que essas pessoas compreenderam a morte, a qual temiam.
Nesse caso, a ”despersonalização”, o “destacar-se” do próprio corpo — e do próprio ser — corresponderia a um esforço inconsciente no sentido de evitar envolver-se com o que estava acontecendo.
O que realmente há depois daqui?
Você deseja ser recebido por seres de luz, e por seus entes queridos quando morrer? Bem, se isso for mantido em sua mente, vai acabar acontecendo.
Seja como for, algumas explicações exclusivamente fisiológicas foram tentadas. Alguns médicos sugerem que se trata simplesmente de alucinações, pelo menos boa parte dos depoentes, sua OBE parecem estar mais relacionadas com um vislumbre bastante concreto de uma “vida depois da vida”.




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