Passaríamos páginas aqui descrevendo seus usos. Seu caule era comestível, bem como suas raízes, normalmente servidas como um petisco marinado em vinagre. Cozida junto com lentilhas, a erva atuava como conservante. E criadores de carneiros e ovelhas obtinham carne mais macia se alimentassem seus animais com silphium.
Mais? Suas flores amarelas eram matéria-prima para perfumes, ao passo que a seiva, depois de desidratada, podia ser ralada para dar tempero a pratos como flamingo grelhado, por exemplo. O condimento, conhecido como "laser", era fundamental na alta cozinha do Império Romano.
A erva tinha ainda aplicações médicas e era usada para uma série de condições, de hemorroidas a mordidas de cães.
Por fim, silphium era útil no quarto: além de afrodisíaco, a erva pode ter sido um dos primeiros métodos anticoncepcionais por seu potencial de "purgar o útero". Há historiadores que dizem que o formato de coração de suas raízes pode ser uma das origens de nossa associação do romance com o símbolo.
O famoso imperador romano Júlio César gostava tanto do silphium que chegou a armazenar mais de 680 kg da erva no Tesouro Romano.
No entanto, a planta hoje não existe mais e apenas algumas imagens estilizadas e relatos de naturalistas permanecem. Sendo assim, a verdadeira identidade da erva favorita dos romanos é um mistério. Para alguns historiadores, a planta foi extinta, mas outros especialistas acham que ela ainda pode existir no Mediterrâneo como uma variação.
Como isso aconteceu? E podemos trazer a erva de volta?
Reza a lenda que a silphium foi descoberta depois de uma imensa tempestade na costa leste da Líbia, há mais de 2,5 mil anos. A partir dali, a erva teria se espalhado pela região, crescendo de forma abundante em colinas e planícies.
Isso pode soar estranho, já que o norte da África não é muito conhecido por seu potencial agrário. Mas a região de que estamos falando, conhecida na antiguidade como Cirenaica, marcada por verdejantes planaltos, é conhecida pela abundância de água. Algumas partes hoje recebem 85 cm de água por ano, um índice de pluviosidade parecido com o do Reino Unido.
A região foi originalmente colonizada pelos gregos e anexada pelos romanos por volta de 96 a.C. - algumas décadas depois, Cirene foi dada por Atenas a Roma. Quase imediatamente, os estoques de silphium começaram a diminuir em um ritmo alarmante. Apenas 100 anos mais tarde, a erva tinha desaparecido - Plínio, um dos mais conhecidos historiadores romanos, escreveu que mudas da erva eram sumariamente extraídas e enviadas de presente ao imperador Nero por volta dos anos 56 a 84 d.C..
O grande problema é que a planta é o que se pode chamar de temperamental: só crescia em Cirenaica e ocupava uma área total de 201 km de comprimento por 40 km de largura. Por mais avançadas que fossem para a época, as civilizações grega e romana não conseguiram reproduzir a silphium em outras regiões.
Traficantes também "malhavam" a erva, misturando-a a mostarda e outras plantas como o zimbro - mais conhecido hoje por seu papel na preparação do gin.
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| O silphium era um 'parente' do salsão e usado como tempero, remédio, afrodisíaco e anticoncepcional |
Há várias razões que podem explicar isso. "Normalmente, o problema é relacionado às sementes", diz Monique Simmonds, vice-diretora de Ciências de Kew Gardens, o principal jardim botânico do Reino Unido.
Ela cita como exemplo as papoulas. Uma única planta pode produzir até 60 mil sementes, mas elas precisam ser expostas à luz para germinar. Sem isso, apenas ficarão na terra até que sejam comidas ou apodreçam. Sendo assim, papoulas vingam em solos "perturbados", em que a luz pode invadir fendas no solo.
As frutas avermelhadas - ao contrário do mirtilo azul mais comum - fazem parte de geleias, molhos, tortas, sorvetes, drinques alcoólicos e até curries. E, todos os anos, a demanda é superior à oferta, pois não há uma única fazenda de huckleberries na América do Norte.
Colonizadores europeus bem que tentaram trazer a fruta, mas falharam. Esforços sérios mais recentes de cultivo tiveram início em 1906, mas os mirtilos ainda resistem à produção controlada - onde foram cultivados, não deram fruto.
O huckleberry é nativo de encostas de montanhas e florestas norte-americanas. As frutas crescem em arbustos e tem raízes "espalhadas" pelo solo. A falta de um enraizamento mais centralizado faz com que os mirtilos sejam especialmente difíceis de transplantar. Fazendeiros durante anos cometeram o erro de confundir o caule subterrâneo da planta com as raízes.
Tentar replantá-las desse jeito era o mesmo que esperar que folhas germinassem.
Só que nem mesmo os avanços tecnológicos da botânica conseguiram subjugar os huckleberries. E o mais curioso é que não parece haver grandes segredos em seu crescimento. A resposta está no habitat, segundo especialistas. "As plantas em uma determinada área têm grande impacto na química do solo", explica Simmonds.
A agricultura inevitavelmente afeta o equilíbrio entre elementos químicos no solo, como o magnésio, e isso resulta no fato de que algumas plantas jamais "pegarão" em terras cultivadas. Hoje, o único método conhecido de cultivar esses mirtilos é desmatar uma região e deixar as plantas em paz.
Talvez os gregos estivessem a par disso. Há registros de tentativas de cultivo da erva na Europa, mas o diagnóstico foi que a planta carecia de um determinado "humor" para germinar - a teoria humoral associava temperamentos com fluidos corporais e foi o principal corpo de explicação racional da medicina até o século 17.
Há outra possibilidade: o silphium era um híbrido. O cruzamento de espécies é conhecido em diversos ramos da biologia. Um camelo macho com uma lhama fêmea, por exemplo, resultam nos "camas", filhotes com o potencial de produção de lã da mãe e a força do pai. No mundo das plantas há os morangos de jardim, cruzamento das variedades norte-americanas e chilenas - as frutas resultantes são maiores e mais suculentas.
E o que dizer do milho, o mais conhecido híbrido da agricultura e cuja produção anual supera 360 bilhões de metros cúbicos? Mas enquanto a primeira geração dessas uniões pode ser altamente desejável, seus "filhos" e "netos" frequentemente não estão no mesmo nível. Híbridos de segunda geração são extremamente imprevisíveis por causa de desequilíbrio genéticos - imaginem um animal com o temperamento da lhama e a capacidade de produção de lã de um camelo, por exemplo.
Em plantas selvagens, porém, isso não é um problema. O cruzamento precisa acontecer apenas uma vez e, a partir daí, as plantas não crescem de sementes, mas através de reprodução assexuada pelo avanço das raízes. Um exemplo está nos cemitérios do Oriente Médio, em que um tipo de íris cresce em túmulos muçulmanos milhares de anos depois do primeiro cruzamento em algum deserto - isso apesar das plantas serem estéreis.
Mas o grande problema era a cobiça. Plínio escreveu que senhorios romanos eram obrigados a cercar pastagens com a presença do silphium para evitar que servissem de alimentos para ovelhas. Mas houve rebeliões em que pastores em busca da valorização de seu estoque - lembremos que as ovelhas alimentadas com a erva tinham carne mais cara - derrubavam as cercas.
Sendo assim, o silphium estava sendo atacado por todos os lados. Extraído e pastado à exaustão. E pode ter sido minado também por sua própria biologia. Embora os gregos tivessem regras rigorosas sobre o quanto da raiz pudesse ser extraído - o que poderia assegurar algum tipo de regeneração -, traficantes podem ter ignorado as determinações. "Se você levar a raiz, precisa de uma planta que cresça bem da semente", diz Simmonds.
A história do silphium é familiar da maneira mais triste. Nos dias de hoje, ervas medicinais fazem parte de uma indústria bilionária, mas muitas estão ameaçadas pelo extrativismo, o crescimento urbano desordenado e o aquecimento global. Apenas na África do Sul, por exemplo, 82 tipos de ervas estão na lista de espécies ameaçadas e pelo menos outras duas desapareceram.
Uma esperança no caso do silphium é que poucos estudos sobre diversidade vegetal foram feitos até hoje. É possível que algumas plantas possam ter escapado dos gregos e romanos. "A erva pode ainda estar lá, porque a Líbia não é um país fácil de mapear", explica Simmonds.
Teofrasto descreveu a planta como possuidora de raízes escuras e cobertas por uma casca negra. Elas seriam compridas, do tamanho da distância entre a ponta do dedo médio e o cotovelo, o que os romanos conheciam como cúbito. O botânico dizia ainda que a planta tinha um caule oco e folhas douradas, parecidas com as do aipo.
Moedas antigas mostram a planta florida e, segundo Simmonds, ela pareceria bastante visível e facilmente percebida. Teofrasto, inclusive, comparou a erva a outra espécie, a Magydaris pastinacea, natural da Síria e das encostas do Monte Parnasos, próximo à cidade grega de Delfos. Ele definiu ambas como "arbustos sem coluna" e relacionados ao funcho.
Cientistas mais modernos acreditam que o grego podia estar certo. Eles agora acreditam que, assim como a assa-fétida, o silphium pode ter pertencido a um grupo de plantas relacionadas ao funcho, conhecido como Férula. Na verdade, são parentes da cenoura e crescem de forma selvagem no norte da África e no Mediterrâneo. Duas dessas plantas, ambas variações de funcho-gigante, ainda existem na Líbia hoje. E uma delas pode ser silphium.
Mas Rowan já avisa que, mesmo que a erva não esteja extinta, ela possivelmente não terá um revival - pelo menos no Ocidente. "Há uma série de temperos romanos, como o levístico (um parente do salsão), que eram obrigatórios à mesa em priscas eras, mas que agora são desconhecidos e praticamente impossíveis de adquirir".
E vale lembrar que a cozinha romana não era em nada parecida com a comida italiana que conhecemos. Era baseada em contrastes entre sabores doces, salgados e azedos - pense, por exemplo, em melões com molho de tripas de peixe. "Se algo era comestível, os romanos comiam."
A lista inclui, por exemplo, papagaio assado com alho-porró e uma redução de mosto de uvas - e pitadas de silphium.
É possível que jamais saibamos a verdadeira identidade da erva, mas podemos aprender com seu declínio. O último censo em Cirene mostra que muitas espécies estão desaparecendo, que a terra arável está perdendo espaço para o deserto e que a pastagem está fora de controle. O Império Romano há muito se foi, mas parece que estamos cometendo os mesmos erros.
Com a Informação BBC.

