O termo Deep Web passou a ser usado entre os anos de 2001 e 2002, e hoje em dia é sinônimo de crimes cibernéticos e da obscuridade humana. Embora ainda não fosse denominada da forma que é hoje, a deep web já está ativa desde a década de 70. Convido todos a conhecer um pouco mais sobre esse assunto na matéria abaixo.

A deep web é um conceito que muita gente entende errado. Ela não representa apenas a parte criminosa ou ilegal da internet, mas sim todos os sites não indexados e que só podem ser encontrados por algum método específico de acesso. Mas o que são conteúdos não indexados? Serviços de email, internet banking, centrais de comandos de universidades e empresas estão por lá, por exemplo. Mas dentro da imensa deep web também se concentra a dark web, o setor que costuma abrigar os conteúdos mais pesados, inclusive os ilegais.

Ao longo dos 6 anos de existência do blog Noite Sinistra já publicamos inúmeras matérias sobre a Deep Web - que podem ser acessadas através do marcados DEEP WEB, onde normalmente falamos das lendas e das partes mais assustadoras desse lado da internet, mas isso ocorre por causa da temática do Noite Sinistra. Como somos um espaço destinado a falar de curiosidades macabras, lógico que sempre que falamos de Deep Web falamos do lado mais sombrio, ou seja, da Darknet, mas isso não quer dizer que esse é o único lado que existe. Em outras matérias sempre deixamos claro o quanto a liberdade de expressão, principalmente em fóruns, é importante dentro de algumas realidades opressivas, como por exemplo na China, onde o governo controla boa parte do tráfego de informações da grande rede.

Gostaria convidar a todos a conferirem essa matéria e conhecer um pouco mais a respeito das origens da DeepWeb. Sei que a matéria acabou ficando um pouco mais extensa do que deveria, ainda mais por ela estar permeada por links com informações complementares. Mesmo assim acredito que seja bastante interessante mergulhar um pouco nesse assunto.

O começo da Deep Web

Algumas fontes afirmam que o início da deep web se deu durante a segunda guerra mundial, ou pelo menos a ideia surgiu nessa época. Em 1945, durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão precisava manter contato com os membros do Eixo (Alemanha e Itália) de uma maneira com que os Aliados não soubessem dos planos, estratégias de guerra e avanços do Japão, que até então, utilizava Os rádios transmissores e os radares dos sistemas de navegação aéreos e marítimos.


Eles desenvolveram um projeto onde enviavam dados pela rede com uma criptografia básica, porém, já era o necessário para conseguir com que a mensagem chegasse ao destinatário sem correr o risco de que alguma outra pessoa tivesse acesso ao conteúdo. Praticamente o mesmo conceito da rede Freenet, que tem o objetivo de criptografar todo tipo de interação sua com um amigo ou usuário da rede.


Após o final da Segunda Guerra, os Japoneses pararam de utilizar este meio de comunicação que ficou famoso com o término da guerra. A partir dai, muitas pessoas acharam esta ideia completamente útil e decidiram aprimorar os conceitos e a estrutura desse meio de comunicação.

A deep web com os moldes que conhecemos hoje, ou pelo menos a fase precursora desse atual momento, surgiu com o nome de darknets. Lá nas primeiras conexões da ARPANET, que seria um dos esqueletos iniciais da internet nos Estados Unidos e que a gente já abordou em um vídeo especial, já existiam redes secretas. Elas tinham endereços que não apareciam nos índices oficiais de laboratórios, bases militares e universidades. Isso aconteceu no começo dos anos 70 e valia para algumas conexões em que circulavam informações sigilosas.


O começo da ARPANET
Elas recebiam dados da ARPANET, mas não estavam abertas nem enviavam informações para fora. Dessa obscuridade, por ficar ali nas sombras, veio o nome darknet. Mas o termo foi popularizado na indústria só mesmo em 2001 e 2002, depois de artigos acadêmicos chamados “O Valor escondido da Deep Web”, de Michael Bergmann, e "A Darknet e o futuro da distribuição de conteúdo", de quatro pesquisadores da Universidade de Stanford.

Meios diferenciados

Na década de 80, a moda para fugir das conexões tradicionais mudou. Nasceu o uso de servidores em países afastados para compartilhar conteúdos mais privados ou até ilegais — como paraísos fiscais, mas com informações e serviços. Países do Caribe eram bastante usados para hospedar esse tipo de conteúdo, que podia envolver apostas e pornografia. Essa estratégia de abrigar servidores em terras com leis mais flexíveis existe até hoje, com sites de pirataria.

Já na década de 90, quando o uso comercial da internet começa e se multiplicar aos poucos no planeta entre consumidores, e uma rede centralizada nasce. Isso é ruim para quem queria fazer as coisas debaixo dos panos, e novas estratégias começaram a se boladas. Uma delas era proteger sites com senhas só para usuários autorizados. Isso impedia o acesso ao site por pessoas indesejadas, mas não tornava o site oculto dessas pessoas, o que ainda significava que o mesmo poderia ser invadido.

Um Tor para unir a todos

O Tor nasceu na metade na década de 1990 no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos. Pois é, o navegador usado nos confins da internet — muitas vezes para praticar crimes — foi criado e financiado por órgãos militares dos Estados Unidos. A ideia do projeto inicial, dos cientistas Paul Syverson, Michael G. Reed e David Goldschlag, era uma forma de mascarar a identidade online de agentes em missões de campo ou até informantes infiltrados. O nome dele é a sigla para The Onion Routing, ou roteamento cebola.

Nessa forma de comunicação, cada roteador pelo qual a mensagem ou conexão passa criptografa um pedaço ou uma camada. Aí, para chegar à mensagem original, você precisa primeiro solucionar todas as outras codificações, que são as chamadas camadas. Os domínios das páginas navegadas no Tor inclusive terminam em ponto onion.

O site chamado The Hidden Wiki, ou a wiki escondida, é o mais famoso índice com links para navegação por lá.

Depois de a própria DARPA entrar no projeto e tudo ser paralisado por alguns anos, em 2002 saiu a primeira versão estável do Tor, e ele foi liberado para uso civil no ano seguinte. Hoje, uma organização chamada The Tor Project licencia gratuitamente o código da plataforma e mantém tudo funcionando. Mesmo assim, agências do governo ainda foram bastante ligadas ao Tor por vários anos, especialmente em financiamento.

E não adianta achar que é só usar o Tor que você está seguro na navegação, porque não é bem assim.

Em 2004, já eram 100 nós conectados pelo Tor por voluntários, e Estados Unidos e Alemanha eram os países mais ativos. Em 2011, o número subiu para 2 mil nós por todo o mundo e, em 2016, chegou-se a 6 mil nós.

Outras redes

Mas engana-se quem pensa que existe apenas a rede Tor. Em 1999, surgiu a Freenet, um projeto do na época estudante Ian Clarke. Ele criou uma forma de navegação descentralizada para envio e recebimento de dados de forma livre e segura, ou seja, anônima. Trata-se de uma plataforma peer to peer em que cada usuário armazena um pouco da informação que circula por lá — mas, como tudo é criptografado, você não sabe exatamente o que está guardando.

Os sites acessíveis pela Freenet só podem ser abertos por quem está lá, e você fica ainda mais seguro se apenas se conectar com seus contatos próximos, em um modo de uso chamado darknet. A Freenet é uma forma de navegação mais idealizada, pensada para países com censura ou usuários que se sentem sufocados na rede atual.

Aqui no blog Noite Sinistra já publique uma matéria com prints da Deep Web coletados através do Freenet Project, na qual eu falo um pouco a respeito das minhas impressões durante a navegação com o uso dessa ferramenta.

Outra rede descentralizada bastante famosa é a I2P, ou Invisible Internet Project. Ela surgiu em 2003 e atua de maneira semelhante ao Tor, jogando tráfego de um lado para o outro para evitar detecção. Ela é uma comunidade bem independente e começou como um braço da Freenet, se especializando em download de torrents em países com leis pesadas contra pirataria. Ela se diz mais segura que o Tor por conta da forma como separa e envia os dados.


Mas talvez o paraíso de dados mais peculiar seja o HavenCo. Ele foi fundado em 2000 por Ryan Lackey e Sean Hastings, esse era um dos locais mais promissores para você guardar absolutamente de tudo sem qualquer chance de ser penalizado. Isso porque ele ficava no principado de Sealand, uma micronação não reconhecida pela ONU na costa da Inglaterra cujo único território são as ruínas de uma base naval.


Ele tem menos de 30 habitantes registrados — que não moram por lá. Só que a HavenCo fechou em 2008, especialmente por problemas da empresa com a “família real”, que se dizia dona de Sealand.

Mitos e verdades

E foi graças às atividades ilegais na dark web, principalmente aquela relacionadas a venda de produtos ilícitos, que começamos a conhecer a bitcoin. A unidade monetária descentralizada foi proposta por Satoshi Nakamoto, que ninguém sabe até hoje se é uma pessoa de verdade ou um grupo de empresários. Em 2016 o empresário australiano Craig Wright afirmou ser o pai da moeda, alegando que ele usada o pseudônimo Satoshi Nakamoto. Mas a veracidade das alegações do australiano ainda não foi confirmada.

A bitcoin era a forma de pagamento mais usada para compra e contratação de serviços nessas redes paralelas, por conta da dificuldade de rastreamento. Isso inclusive ajudou a sujar um pouco a imagem da bitcoin e de outras criptomoedas até hoje.

Para você ter uma ideia do crescimento em popularidade dessas redes paralelas e nada seguras, em 2010 a firma de segurança Procysive estimou que 50 mil sites extremistas e 300 fóruns terroristas já habitavam a dark web. Isso fora a venda ou troca de conteúdos piratas e envolvendo temas pesados, como encomenda de assassinatos, venda de drogas e até consumo de pornografia infantil.
E existe um mito de que a internet guarda um lugar ainda pior.

É a Mariana’s Web, cujo nome é inspirado no ponto mais profundo do oceano na Terra, a Fossa das Marianas. Esse seria o fundo do poço, o ponto mais perturbador, maluco, perigoso e tudo mais. Os especialistas em tecnologia, como o site Tecmundo, afirmam que a Mariana's Web é apenas uma lenda da internet.


Virando mainstream

A dark web apareceu mesmo para o público geral em 2011, se tornando um verdadeiro viral, ano de fundação da norte-americana Silk Road, uma plataforma na deep web de venda de drogas, remédios de uso controlado e até produtos legalizados, como livros. O nome vem da Rota da Seda, as estradas comerciais do século 9 para ligar Europa e Ásia no comércio de mercadorias.

A plataforma começou limitada, com poucos vendedores e regras rígidas do que podia por lá. O líder tinha o apelido de Dread Pirate Roberts, um personagem do excelente filme "A Princesa Prometida", que lutava por ideais libertários e não gostava de autoridades. Só que logo a mídia começou a fazer matérias sobre a loja, e isso chamou a atenção de políticos e autoridades dos Estados Unidos. Em 2013, Ross Ulbricht foi preso e condenado à prisão perpétua por ser o fundador do site, mas ele negou que era o atual Dread Pirate Roberts.

Ross Ulbricht
O documentário "Deep Web", de 2015, cobre bem esse caso e também traz o ponto de vista de Ross. Novas Silk Roads tentaram nascer, inclusive na I2P, e claro que a venda de drogas não acabou na dark web depois disso, mas nenhuma plataforma tão grande apareceu após o caso.


Considerações Finais

Mas, afinal, é só crime e coisa pesada que a gente vê nessas redes? Bom, a quantidade de conteúdo existente na deep web é enorme, muito maior do que aquele que circula na superfície. Só que, como a gente mencionou lá no começo, nem tudo da deep web é perturbador ou ilegal — apesar desse  tipo de conteúdo existir em massa por lá em abundância até.

A gente realmente não recomenda que você vá atrás assim, de repente, até porque a quantidade de criminosos e hackers esperando pessoas menos experientes aparecerem por lá é alta.

O uso de VPNs e outros meios de mascarar a identidade é essencial, mas também não pode garantir nada.

Quer dizer, então, que tudo isso precisa ser desligado? Não, porque existir um espaço não indexado, seguro e próprio para liberdade de expressão também é importante. A Wikileaks já recebeu muita coisa via deep web, justamente pelo medo de rastreamento de quem faz vazamentos.

Habitantes de alguns países opressores, onde liberdade de navegação e de opinião são controladas, fazem uso do Tor para navegar pela internet, não acessando apenas a Deep Web. Para essas pessoas a deep web é um espaço onde eles podem organizar movimentos de resistência, por exemplo.

Vale lembrar que a Deep Web não comete crimes, pessoas cometem crimes. As autoridades deveriam fazer uso desse espaço na busca por criminosos cibernéticos, como o caso da polícia australiana que administrou um site de pedofilia por um tempo para caçar possíveis pedófilos.






Com a Informação Tecmundo e Blog DeepWebBrasil.

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