Pra começar, nós navegamos na parte indexada da internet, que é a surface web. Todos os sites de busca conseguem encontrar os endereços e listar cada um deles.

Aí tem a deep web, que é um conceito que muita gente entende errado. Ele não é a parte criminosa ou ilegal da internet, mas sim todos os sites não indexados e que só podem ser encontrados por algum método específico de acesso. Mas o que são conteúdos não indexados? Serviços de email, internet banking, centrais de comandos de universidades e empresas estão por lá, por exemplo. Mas dentro da imensa deep web também se concentra a dark web, que é o setor que costuma abrigar os conteúdos mais pesados, inclusive os ilegais.

O começo

Por causa dessa definição, a história começa bem antes, com o nome de darknets. Lá no começo das primeiras conexões da ARPANET, que seria um dos esqueletos iniciais da internet nos Estados Unidos e que a gente já abordou num vídeo especial, já existiam redes secretas. Elas tinham endereços que não apareciam nos índices oficiais de laboratórios, bases militares e universidades. Isso aconteceu no começo dos anos 70 e valia pra algumas conexões em que circulavam informações sigilosas.
Um desenho.O começo da ARPANET.
Elas recebiam dados da ARPANET, mas não estavam abertas ou enviavam informações pra fora. Dessa obscuridade, por ficar ali nas sombras, veio o nome darknet. Mas o termo foi popularizado na indústria só mesmo em 2001 e 2002, depois de artigos acadêmicos chamados “O Valor escondido da Deep Web”, de Michael Bergmann, e "A Darknet e o futuro da distribuição de conteúdo", de quatro pesquisadores de Stanford.

Meios diferenciados

Na década de 80, a moda pra fugir das conexões tradicionais mudou. Nasceu o uso de servidores em países afastados pra compartilhar conteúdos mais privados ou até ilegais, tipo paraísos fiscais, mas com informações e serviços. Países do Caribe eram bastante usados pra hospedar esse tipo de conteúdo, que podia envolver apostas e pornografia. Essa estratégia de abrigar servidores em terras com leis mais flexíveis existe até hoje com sites de pirataria.
Agora a gente chega em 1990, quando o uso comercial da internet começa e se multiplicar aos poucos no planeta entre consumidores, e uma rede centralizada nasce. Isso é ruim pra quem queriam fazer as coisas debaixo dos panos, e novas estratégias começaram a se boladas. Uma delas era proteger sites com senhas só pra usuários autorizados.

Um Tor para unir a todos

O Tor, que se escreve Tor, nasceu na metade na década de 1990 no Laboratório de Pesquisa Naval dos Estados Unidos. Pois é, o navegador usado pra navegar nos confins da internet e muitas vezes pra praticar crimes foi criado e financiado por órgãos militares dos Estados Unidos. A ideia do projeto inicial, dos cientistas Paul Syverson, Michael G. Reed e David Goldschlag era uma forma de mascarar a identidade online de agentes em missões de campo ou até informantes infiltrados. O nome dele é a sigla para The Onion Routing, ou roteamento cebola. 
Uma logo.
Nessa forma de comunicação, cada roteador pelo qual a mensagem ou conexão passa criptografa um pedaço ou camada.Aí, pra chegar na mensagem original, você precisa primeiro solucionar todas as outras codificações, que são as chamadas camadas. Os domínios das páginas navegadas no Tor inclusive terminam em ponto onion. Um site chamado The Hidden Wiki, ou a wiki escondida, é o mais famoso índice com links pra navegação por lá.
Depois da própria DARPA entrar no projeto e tudo ser paralisado por alguns anos, em 2002 saiu a primeira versão estável do Tor, e ele foi liberado pra uso civil no ano seguinte. Hoje, uma organização chamada The Tor Project licencia gratuitamente o código da plataforma e mantém tudo funcionando. Mesmo assim, agências do governo ainda foram bastante ligadas ao Tor por vários anos, especialmente em financiamento.
E não adianta achar que é só usar o Tor que você tá seguro na navegação, porque não é bem assim.
Em 2004, já eram 100 nós conectados pelo Tor por voluntários, e Estados Unidos e Alemanha eram os países mais ativos. Em 2011, já eram 2 mil nós por todo o mundo e 6 mil em 2016.

Outras redes

Em 1999, surge a Freenet, um projeto do na época estudante Ian Clarke. Ele criou uma forma de navegação decentralizada pra envio e recebimento de dados de forma livre e segura, ou seja, anônima. Ela é uma plataforma peer to peer em que cada usuário armazena um pouco da informação que circula por lá, mas como tudo é criptografado, você não sabe exatamente o que está guardando.
Uma captura de tela.
Os sites acessíveis pela Freenet só pode ser abertos por quem está lá e você fica ainda mais seguro se apenas se conectar com seus contatos próximos, em um modo de uso chamado darknet. A Freenet é uma forma de navegação mais idealizada, pensada pra países com censura ou usuários que se sentem sufocados na rede atual.
Outra rede decentralizada bastante famosa é a I2P, ou Invisible Internet Project. Ela surgiu em 2003 e atua parecido com o Tor, jogando tráfego de um lado pro outro pra evitar detecção. Ela é uma comunidade bem independente e começou como um braço da Freenet, se especializando em download de torrentes em países com leis pesadas contra pirataria. Ela se diz mais segura que o Tor por conta da forma com que separa e envia os dados.
Uma logo.
Mas talvez o paraíso de dados mais peculiar é o HavenCo. Ele foi fundado em 2000 por Ryan Lackey e Sean Hastings e era um dos locais mais promissores pra você guardar absolutamente de tudo sem qualquer chance de ser penalizado. O motivo é que ele ficava no principado de Sealand, uma micronação não reconhecida pela ONU que fica na costa da Inglaterra e tem como único território as ruínas de uma base naval.
Uma plataforma.
Ele tem menos de 30 habitantes registrados, mas sem morar por lá. Só que a HavenCo fechou em 2008 especialmente por problemas da empresa com a “família real” que se dizia dona de Sealand.

Mitos e verdades

E foi graças às atividades ilegais na darkweb que começamos a conhecer a bitcoin. A unidade monetária decentralizada proposta por Satoshi Nakamoto, que ninguém sabe até hoje se é uma pessoa de verdade ou um grupo de empresários.
A bitcoin era a forma de pagamento mais usada pra compra e contratação de serviços nessas redes paralelas, por conta da dificuldade de rastreamento. Isso inclusive ajudou a sujar um pouco a imagem da bitcoin e de outras criptomoedas até hoje. E é claro que ela será tema de um vídeo separado aqui na série.
Uma logo.
Pra você ter uma ideia do crescimento em popularidade dessas redes paralelas e nada seguras, em 2010 a firma de segurança Procysive estimou que 50 mil sites extremistas e 300 fóruns terroristas já habitavam a darkweb. Isso fora a venda ou troca de conteúdos piratas e envolvendo temas pesados, como encomenda de assassinatos, venda de drogas e até consumo de pornografia infantil.
E existe um mito de que a internet guarda um lugar ainda pior.
É a Mariana’s Web, que tem o nome inspirado no ponto mais profundo do oceano na Terra, a fossa das marianas. Esse seria o fundo do poço, o ponto mais perturbador, maluco, perigoso e tudo mais. Mas... é falso.

Virando mainstream

A darkweb apareceu mesmo pro público geral em 2011. É o ano de fundação da norte-americana Silk Road, uma plataforma na deep web de venda de drogas, remédios de uso controlado e até produtos legalizados, tipo livros. O nome vem da Rota da Seda, as estradas comerciais do século 9 pra ligar Europa e Ásia no comércio de mercadorias.
Uma captura de tela.
A plataforma começou limitada, com poucos vendedores e regras rígidas do que podia por lá. O líder tinha o apelido de Dread Pirate Roberts, um personagem do excelente filme A Princesa Prometida, que lutava por ideais libertários e não gostava de autoridades. Só que logo a mídia começou a fazer matérias sobre a loja e isso chamou a atenção de políticos e autoridades dos Estados Unidos. Em 2013, Ross Ulbricht foi preso e condenado a prisão perpétua por ser o fundador do site, mas ele negou que era o atual Dread Pirate Roberts.
Uma pessoa.Ross Ulbricht.
O documentário Deep Web, de 2015, cobre bem esse caso e também traz o ponto de vista do Ross. Novas Silk Roads tentaram nascer inclusive na I2P e claro que a venda de drogas não acabou na darkweb depois disso, mas nenhuma plataforma tão grande apareceu depois do caso.

Concluindo

Mas, afinal, é só crime e coisa pesada que a gente vê nessas redes? Bom, a quantidade de conteúdo existente na deep web é enorme, muito maior do que aquele que circula na superfície. Só que como a gente falou lá no começo, nem tudo da deep web é perturbador ou ilegal, apesar de sim, esse conteúdo existir em massa por lá.
A gente realmente não recomenda que você vá atrás assim, de repente, até porque a quantidade de criminosos e hackers esperando pessoas menos experientes aparecem por lá é alta.
O uso de VPNs e outros meios de mascarar a identidade é essencial, mas também pode não garantir nada.
Quer dizer então que tudo isso precisa ser desligado? Não, porque existir um espaço não indexado, seguro e próprio pra liberdade de expressão também é importante. A Wikileaks já recebeu muita coisa via deepweb justamente pelo medo de rastreamento de quem faz vazamentos, e chineses escapam do pesado firewall do país usando o Tor.







Com a Informação TecMundo.

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