Há poucos meses, governo havia dado maior surto em décadas como encerrado. Mas novas mortes assustam população, e até 20 milhões devem ser vacinados. Há risco de "reurbanização" da doença?
O registro de novas mortes decorrentes da infecção pelo vírus da febre amarela em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais assustaram a população neste início de ano. Em agosto do ano passado, o Ministério da Saúde havia dado como encerrado o maior surto da doença no país desde 1980.
O número de mortes em São Paulo subiu de 13 para 21 na última sexta-feira (12/01), ao menos sete delas em 2018. O Rio detectou dois novos casos, um deles com óbito, e Minas Gerais confirmou nove mortes pela doença desde o fim do ano passado. 
Cerca de 20 milhões de pessoas deverão ser vacinadas contra a doença a partir de fevereiro em Rio de Janeiro, Bahia e São Paulo, como forma de evitar a propagação do vírus em lugares que, até então, não possuíam recomendação para a vacinação.
Especialistas ouvidos pela DW Brasil dizem que o aumento de casos no verão já era esperado, pela característica sazonal da doença. Com a elevação da temperatura e dos índices pluviométricos, estão dadas as condições para que os mosquitos transmissores se reproduzam, assim como acontece com a dengue.
Num período em que muitas pessoas das grandes cidades tiram férias e viajam para regiões rurais, o risco de uma transmissão urbana não está descartado por autoridades e pesquisadores. O contágio da doença nas cidades não é observado no país desde 1942.
Coordenador de Doenças Transmissíveis do Ministério da Saúde, Renato Alves diz que o governo trabalha com essa possibilidade somente no campo teórico, sem considerá-la provável.
"Embora, esporadicamente, pessoas que não estão vacinadas se exponham às áreas de mata, como nos casos observados em São Paulo, grande parte do contingente populacional urbano tem uma cobertura vacinal boa, o que oferece uma proteção maior. Além disso, todo o trabalho de controle feito nas doenças transmitidas pelo Aedes aegypti se intensifica no verão. Essas situações nos dão uma segurança muito grande", afirma.
Professor emérito da Universidade de Brasília (UnB), o médico epidemiologista Pedro Luiz Tauil também considera remotas as chances do que chama de "reurbanização" da doença. Entretanto, diz que os casos registrados em São Paulo nas últimas semanas acendem um alerta.
"São casos terríveis, de pessoas que estão vindo para as cidades. Nelas, o vírus pode estar ainda no sangue circulante, entre o início dos sintomas e o terceiro ou quarto dia, quando é transmissível para o [mosquito] Aedes aegypti. O mesmo vale para pessoas das áreas rurais que vêm às zonas urbanas em busca de tratamento médico. Por isso, todos devem estar vacinados", alerta o especialista.
Vacina fracionada ou vacina completa?
Para conter a expansão do vírus, o Ministério da Saúde comunicou, nesta semana, que as vacinas seriam oferecidas à população em doses fracionadas nas regiões onde há alto risco de contaminação da doença. Enquanto a dose padrão leva 0,5 ml de soro e protege o paciente para o resto da vida, esta contém apenas 0,1 ml e seu efeito dura cerca de oito anos.
A medida foi adotada pela primeira vez durante as epidemias de febre amarela na República Democrática do Congo e em Angola, em 2016. Nos dois países, a oferta de doses fracionadas da vacina permitiu a interrupção da epidemia.
O professor da UnB aprova a escolha do Ministério da Saúde. Mas destaca que só deve ser empregado em caráter excepcional e ressalta a importância de a vacinação ser mantida nos períodos em que o vírus não representar ameaças à população.
"O Brasil é o maior produtor de vacina contra a febre amarela no mundo. Mas, mesmo em nível global, não existem vacinas suficientes para atender a toda a população brasileira. Se houver disponibilidade, deve-se dar preferência para a vacina completa, porque a duração do efeito já foi testada. No caso da dose fracionada, esse tempo ainda precisa ser confirmado", explica.
Mantendo a vigilância
Entre dezembro de 2016 e junho de 2017, foram confirmados 777 casos e 261 mortes por febre amarela no país. Foi o surto com o maior número de casos em humanos desde 1980.
Na época, houve muita especulação em torno das possíveis motivações para um repentino aumento do número de infectados pela doença. Chegou a ganhar força a hipótese de que a causa principal fosse o desastre ambiental de Mariana, em Minas Gerais, pelo desequilíbrio ambiental que gerou. Nem esta nem as outras teorias foram comprovadas cientificamente.
Fato é que o nível de vacinação não passava de 60% na região do surto, chegando a menos de 20% em alguns municípios. A recomendação é de 90% para áreas de risco. Para o coordenador do Ministério da Saúde, um conjunto de fatores pode ajudar a explicar o quadro de surto do ano passado.
"Eu destacaria as condições ambientais como o principal, pois favorece tanto a ocorrência do vetor como a dispersão do vírus entre os primatas na região silvestre. Além disso, quando a gente passa por um período longo sem surtos, como o que aconteceu desde 2008, há um fenômeno de relaxamento da população em procurar a vacina. Nosso grande desafio é manter esse alerta".
Detecção antecipada
Na quinta-feira (11/01), foi confirmado que os 86 macacos bugios que habitavam o Horto Florestal, parque da Zona Norte de São Paulo, morreram pela aparição do vírus no local, detectada em outubro do ano passado. Renato Alves explica que não há, hoje, um mecanismo que possibilite evitar a circulação do vírus nos primatas.
"A vigilância no macaco tem o objetivo de antecipar a circulação do vírus e poder vacinar pessoas. Temos trabalhado em conjunto com os órgãos ambientais, que têm os olhos voltados para as populações de primatas. Assim, pretendemos detectar mais precocemente essa ocorrência", diz.
Especializado no aspecto clínico da febre amarela, o pesquisador do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) André Siqueira reforça a importância de os serviços de saúde estarem estruturados para um diagnóstico mais minucioso dos pacientes nessas condições.
"Deve-se aumentar o índice de suspeição sobre deslocamentos para áreas silvestres e ter uma abordagem mais detalhista na parte ambulatorial, especialmente com relação ao acometimento dos rins e do fígado. Um grande gargalo é a disponibilidade de testes diagnósticos rápidos. Ainda não temos uma disponibilidade boa, o que limita a rapidez do tratamento", conta.



Com a Informação DW.

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