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O livro “TAC – Teoria da Absorção do Conhecimento”, o primeiro escrito por Bruno Borges, o rapaz que ficou conhecido no Brasil como “Menino do Acre”, é um artefato curioso. A prosa, rebuscada, lembra o estilo pré-moderno e falso-erudito. Borges, que ficou quase cinco meses desaparecido, deixando para trás um quarto coberto por inscrições em textos escritos em código, uma pintura kitsch de si mesmo, ao lado de um extraterrestre, e uma estátua do filósofo renascentista Giordano Bruno (1548-1660), tropeça na sintaxe e na pontuação, além de usar palavras estranhamente fora de contexto, como se as escolhesse apenas pela sonoridade e pelo número de sílabas. 

Expressões como “barganha”, “ostracismo”, “postergado”, “insaciável” são usadas de um modo que leva o leitor a desconfiar de que o autor as emprega sem saber direito o que querem dizer. Um exemplo, tirado da página 134: “sempre achei uma estupidez insaciável (sic) à (sic) rixa entre religiosos e ateus”. 
Pouco mais adiante, na página 138, a manipulação confusa de equações simples sugere um domínio hesitante da álgebra elementar. Além disso, o texto, tal como publicado, mostra que a correção ortográfica do original foi mínima, e provavelmente feita de modo automático, por computador: só isso explica que a palavra “picanha” apareça, repetidas vezes, no lugar de “picana” (adjetivo que, no contexto na obra, faz referência ao filósofo renascentista Pico della Mirandola). 
Essas características talvez sejam a razão de o livro ter evaporado da lista de mais vendidos quase imediatamente depois de ter entrado. Ele aparece entre os best-sellers de não-ficção do site Publishnews referente à semana de 24 a 30 de junho – logo após seu lançamento – apenas para sumir já na semana seguinte
Mas, afinal, o que é a “Teoria da Absorção do Conhecimento” ?

A TAC 

As 191 páginas do livro podem ser destiladas num par de parágrafos não muito longos: as pessoas têm novas ideias quando associam as informações que recebem do ambiente àquilo que já sabem; a partir de um determinado estágio de desenvolvimento, passa a ser possível criar conhecimento mesmo sem novas informações vindas de fora, apenas reelaborando o conteúdo da mente, numa espécie de moto-perpétuo intelectual. 
As pessoas mais bem posicionadas para atingir esse estado místico-cognitivo são aquelas apaixonadas pelo que fazem, obcecadas e febris, que praticam a castidade (ele as chama de “assexuadas”), mantêm uma dieta vegetariana, dormem pouco e se isolam do mundo por longos períodos – como, de acordo com os exemplos citados no livro, Jesus Cristo, Leonardo da Vinci, Adolf Hitler e, somos levados a supor, o próprio Bruno Borges, que ao retornar de seu “desaparecimento” disse ao programa Fantástico, da Rede Globo, que havia “buscado isolamento para encontrar uma verdade dentro de mim”. 
No mesmo programa, o delegado de polícia acreano Alcino Sousa Júnior aparece fazendo o seguinte comentário: “O Bruno se afasta, o livro é lançado – então, fica claro que havia um plano de divulgação”. O policial acrescenta que “não houve crime”. Borges, por sua vez, nega que o sumiço tenha sido parte de uma tentativa de promover o livro. 
As fontes da TAC são variadas: embora afirme que seu livro não é uma obra de ciência, o autor mobiliza, na apresentação de sua tese, conceitos científicos, ainda que apresentados de forma distorcida. Onde avança além da óbvia constatação de que todo novo conhecimento assimilado acaba integrado a um cabedal pré-existente, a “Teoria da Absorção do Conhecimento” é um amálgama de espiritismo, esoterismo, autoajuda e pseudociência

Influências 

No que diz respeito aos autores que inspiraram a doutrina, o livro aponta apenas uma referência bibliográfica, numa nota de rodapé (à página 111, remetendo a uma biografia do médico renascentista Paracelso escrita pelo jornalista britânico Philip Ball). Mas o texto, principalmente no início, está polvilhado de citações diretas entre aspas – a maioria, curiosamente, não de Giordano Bruno (cujo nome é mencionado apenas quatro vezes), mas de Blaise Pascal (1623-1662), com parágrafos inteiros extraídos de trabalhos menos conhecido do filósofo, como “Da Arte de Persuadir ” e “Prefácio sobre o Tratado do Vácuo” (os títulos de onde vieram os trechos, no entanto, não são citados no livro). 
Mas Borges é um compilador onívoro: cita ainda o autor de autoajuda Augusto Cury, por exemplo, e tenta discutir a teoria da mente do escocês David Hume (1711-1776), a dialética marxista, menciona o ocultista francês Eliphas Lévi (1810-1875), fala do escritor de terror americano HP Lovecraft (1890-1937) e de seu biógrafo ST Joshi, de Paulo Coelho e Raul Seixas. 
Num dos trechos mais pessoais da obra, Borges parafraseia Seixas, sugerindo ao leitor sem paciência para ler seu trabalho que “cerre este livro de uma vez e senta-te (sic) sobre o gramado, escancare (sic) tua boca cheia de dentes e espere (sic) a morte chegar”. Esta não é a única passagem agressiva da obra: há uma corrente perceptível de ressentimento arrogante que flui sob o texto, aflorando aqui e ali – principalmente, na discussão da superioridade intrínseca dos “assexuados”. 
Além dos autores citados pelo nome, há as influências que aparecem na forma, como a literatura espírita e esotérica em geral: o texto convoluto, cheio de palavras “difíceis”, o uso inconsistente da segunda pessoa do plural para denotar solenidade. Num trecho da página 179, ao dirigir-se ao leitor, ele passa do “vós” ao “você” e retorna ao “tu”, completando o circuito em menos de três linhas. Borges é certamente bem menos hábil que os autores profissionais desses gêneros, mas a tentativa de emulação é clara. 



Também há alguma influência do espiritismo e do esoterismo sobre o conteúdo. O autor adota a palavra “egrégora”, vinda do vocabulário esotérico e normalmente usada para denominar um estado mental coletivo, ao se referir ao cabedal de conhecimento de um indivíduo – uma pessoa adquire informações e as agrega “à sua egrégora” – e, principalmente perto do fim, usa expressões como “materializados no corpo que tomamos como posse temporária”. Mas a essência do livro vem de outro lugar: dos manuais de motivação e autoajuda, principalmente os que distorcem a neurociência para fazer alegações pseudocientíficas sobre o funcionamento da mente humana. 

Pseudociência e autoajuda 

O jargão típico da autoajuda motivacional dá as caras, com maior frequência, nos trechos autobiográficos. Na página 84, Borges informa-nos de que “estava começando a conspirar para minha própria sorte”. Métodos típicos desse tipo de literatura também aparecem, como a tentativa de extrair as características comuns de histórias de sucesso e recomendá-las como se fossem fórmulas certeiras. 
Trata-se de um procedimento de validade duvidosa, como explica o economista Gary Smith em seu livro sobre erros estatísticos “Standard Deviations”, já que não leva em conta as histórias dos que também tinham essas “fórmulas de sucesso”, mas não terminaram bem. Ao selecionar seus “assexuados” vegetarianos célebres, por exemplo, Borges em momento algum contempla a possibilidade de haver multidões de vegetarianos virgens que nunca conseguiram se destacar em nada. 
Howard Gardner, americano criador da Teoria das Inteligências Múltiplas, segundo a qual existem diferentes tipos de “inteligência” – como matemática, musical, etc., independentes entre si – também é bem mais citado que Giordano Bruno. Embora a obra de Gardner tenha fãs, ela não é levada muito a sério pelos estudiosos do cérebro humano. 
“As evidências sobre a teoria de ‘inteligências múltiplas’ são anedóticas, ou baseadas em síndromes bem específicas, nas quais, inclusive, nem seria possível falar em inteligência em alguns casos”, explica a psicologia e neurocientista Larissa Zeggio, uma das organizadoras da série de livros “Caçadores de Neuromitos”, que examina, exatamente, as percepções populares errôneas sobre o cérebro humano. “Inteligência se refere à capacidade de resolver problemas para se adaptar ao ambiente, usando experiências prévias e flexibilidade. Mesmo nos casos da Síndrome de Savant e alguns casos de autismo, ter, por exemplo, habilidade extrema de somar números não implica em melhora da adaptação ao ambiente - que é a inteligência”. 
Ela acrescenta os estudos de inteligência mostram que o Fator Geral da Inteligência (fator G), que pode ser medido em testes, está dentro da média em casos anedóticos de "altas habilidades em uma das inteligências múltiplas". “Portanto, essas ‘inteligências múltiplas’ não são independentes, mas dependentes do fator G”. 
A “Teoria da Absorção do Conhecimento” também abraça a ideia de que o desenvolvimento diferenciado dos hemisférios cerebrais gera diferenças de habilidade e personalidade – pessoas mais criativas estariam sob o domínio do hemisfério direito e pessoas mais lógicas, do esquerdo. Borges propõe a hipótese de que as diferenças filosóficas entre os gregos Platão e Aristóteles podem ser explicadas por diferenças entre os hemisférios cerebrais. 
“A ideia do predomínio hemisférico sobre interesses e personalidade não é aceita e não faz sentido”, disse Zeggio. “Apesar da especialização hemisférica ser algo real (algumas funções específicas estarem localizadas em um dos hemisférios) e a lateralização cerebral também ser real, com dominância de funcionamento de um hemisfério, sobretudo no aspecto motor, funções como ‘racionalidade’, ‘criatividade’ e afins são atividades complexas que precisam do funcionamento integral do cérebro, ou seja, dos dois hemisférios”. 

Einstein e Darwin 

Neurociência não é a única área em que o criador da TAC escorrega. A física e a biologia também sofrem em suas mãos. Logo no início do livro, ele afirma, de modo categórico, que equação E=mc2 – energia é igual à massa multiplicada pelo quadrado da velocidade da luz – resume a Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein. Na verdade, a famosa fórmula é uma consequência da Teoria da Relatividade Restrita, apresentada por Einstein em 1905. A Relatividade Geral só surgiria dez anos mais tarde. 
“Teoria da Relatividade de Einstein consiste de duas teorias relacionadas: A Teoria da Relatividade Especial e a Teoria da Relatividade Geral”, descreve o físico Elton Carvalho, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). “A primeira trata do fato de que a velocidade da luz, não importa como tentemos medi-la, não depende da velocidade da fonte, do observador e nem do referencial de movimento”. A partir dessa constatação, Einstein chega à fórmula da energia de repouso de uma partícula, a famosa E=mc2. 
“Já a Teoria da Relatividade Geral descreve como a presença de massa ou energia afeta a trajetória inercial de partículas no espaço, e não faz uso direto da expressão E=mc²”, completa. 
Quando discorre sobre genética e evolução das espécies, Borges também tropeça em conceitos básicos. Por exemplo, insiste que a seleção natural provoca mutações. “Este é um erro muito comum e muito importante”, aponta o biólogo Rafael Bento Soares, diretor de conteúdo da empresa NuminaLabs e coordenador da rede de vídeo-blogs de divulgação científica ScienceVlogs. “A seleção natural não causa mutações. O próprio nome diz: ela seleciona, não cria nada. Se seleciona, precisa ter opções, que estão dadas pela variedade ou diversidade que existe, e que é produto das mutações”. 

Ao comentar, no programa Fantástico, seu “desparecimento” de cinco meses, Borges disse que “tudo o que fiz foi com o objetivo principal de estimular as pessoas a adquirir conhecimento”. Num comentário que pode soar involuntariamente irônico, dado o número de conhecimentos falhos presente no livro, o autor acrescenta: “E à medida que a gente vê muitas pessoas começarem a buscar conhecimento a partir disso, podemos ver que deu tudo certo”.

Gazeta do Povo.



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