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Nos últimos anos, três príncipes Sauditas que viviam na Europa desapareceram. Todos eram contrários ao governo saudita - e existem evidências de que foram sequestrados e levados de volta à Arábia Saudita. Depois disso, seu paradeiro se tornou um mistério.

Na manhã de 12 de junho de 2005, o príncipe saudita Sultan bin Turki bin Abdulaziz estava a caminho de um palácio nos arredores de Genebra, na Bélgica. O local pertencia ao seu tio, o rei Fahd, morto em 2005. Sultan havia sido convidado para um café da manhã com o filho favorito do rei, o Príncipe Abdulaziz.

Durante o café, Abdulaziz pediu que Sultan retornasse à Arábia Saudita, onde ele poderia resolver suas discordâncias sobre a liderança do país.

Quando Sultan recusou, seu primo saiu para fazer uma ligação. O outro homem na sala, o ministro para assuntos islâmicos, xeque Saleh al-Sheikh, também se retirou. Alguns minutos depois, homens mascarados surgiram, amarraram Sultan e injetaram um líquido em seu pescoço.

Inconsciente, ele foi levado para o aeroporto de Genebra e colocado em um avião particular.

Anos depois, já exilado, Sultan fez um relato do episódio para uma corte na Suíça.


Serviço encerrado

No dia em que Sultan foi raptado, secretário de comunicações dele, Eddie Ferreira, o esperava em um hotel belga junto com outros funcionários.

"Tentamos contatar o príncipe e não houve resposta. O dia foi passando e o silêncio se tornou ensurdecedor", conta Eddie. "Nós não conseguíamos falar com os seguranças — esse foi o primeiro sinal vermelho."

À tarde, dois visitantes inesperados apareceram. "O embaixador saudita na Suíça chegou com o gerente do hotel e simplesmente disse para a gente sair", diz Eddie. "Ele disse que o príncipe estava em Riyadh (capital da Arábia Saudita) e que nossos serviços não seriam mais necessários."

Mas o que o príncipe Sultan havia feito para sua própria família tê-lo drogado e raptado tão violentamente?

No ano anterior, ele tinha ido à Europa para um tratamento médico e havia começado a dar entrevistas nas quais fazia críticas ao governo saudita. Ele condenava o histórico do país em abusos de direitos humanos, condenava a corrupção entre príncipes e oficiais, e propunha uma série de reformas.

O príncipe Turki bin Bandar com o ministro das finanças paquistanês em 2003
O país é governado por uma monarquia absolutista desde que foi fundado, em 1931, pelo rei Abdulaziz, conhecido Ibn Saud.

Arrastados

Com um alto cargo dentro da polícia saudita, o príncipe Turki bin Bandar chegou a ser responsável pela segurança da família real. No entanto, depois de uma disputa familiar acirrada sobre a herança, acabou sendo colocado na prisão. Quando conseguiu sair, fugiu para a França, onde começou a postar vídeos no YouTube pedindo por reformas na Arábia Saudita.

Os sauditas reagiram com a mesma atitude que tiveram com o príncipe Sultan: tentaram convencer Turki a retornar. Quando o ministro do interior, Ahmed al-Salem, ligou, o príncipe gravou a conversa e colocou na internet.

"Todos estamos ansiosos pelo seu retorno, Deus te abençoe", disse o ministro.

"Esperando meu retorno?", respondeu Turki. "E as cartas que seus oficiais me enviaram dizendo 'seu filho da puta, nós te arrastaremos de volta como fizemos com Sultan'?".

O ministro responde: "Eles não vão encostar em você. Eu sou seu irmão."

"Não, as cartas são suas. O ministro do interior que as mandou", diz Turki.

O príncipe continuou publicando vídeos até julho de 2015. Depois, em algum momento do ano seguinte, ele desapareceu.

"Ele me ligava uma vez por mês", diz seu amigo Wael al-Khalaf, que é ativista e blogueiro. "De repente ele sumiu por quatro ou cinco meses. Eu fiquei desconfiado. Aí ouvi de um oficial da monarquia que Turki bin Bandar estava com eles. Então concluí que ele tinha sido sequestrado."

Um artigo de um jornal do Marrocos da época dizia que Turki estava voltando para a França depois de uma visita ao país quando foi preso. Então, seguindo um pedido das autoridades sauditas, foi deportado com a aprovação da justiça marroquina.

Ainda não se sabe com certeza o que aconteceu com Turki bin Bandar. Antes de seu desaparecimento, ele deu a seu amigo Wael a cópia de um livro que ele havia escrito, na qual ele deixou uma nota:

"Querido Wael, essa declaração não deve ser compartilhada a não ser que eu seja sequestrado ou assassinado. Eu sei que eles vão me raptar ou me matar. Também sei que vão abusar dos meus direitos e dos direitos do povo saudita."

Na mesma época em que o príncipe Turki sumiu, outro membro da realeza, Saud bin Saif al-Nasr, também desapareceu. Ele tinha relativamente pouca importância dentro da família e um gosto por cassinos europeus e hotéis caros.

Em 2014, Saud começou a postar críticas à monarquia saudita no Twitter. Ele pedia que os oficiais que haviam apoiado a queda do presidente egípcio, Mohammed Morsi, fossem processados.

Em setembro de 2015, quando duas cartas anônimas, supostamente escritas por algum membro da realeza, clamavam por um golpe para remover o rei Salman, Saud os apoiou publicamente – foi o único membro da realeza a fazê-lo. Isso é equivalente à traição, e pode ter sido o que selou seu destino.

Depois de alguns dias, ele postou: "Clamo para que a nação transforme o conteúdo dessas cartas em pressão popular". Depois disso, suas publicações pararam.

Outro dissidente, o príncipe Khaled bin Farhan, que fugiu para a Alemanha em 2013, acredita que Saud foi enganado e convencido a embarcar em um vôo de Milão para Roma para discutir um negócio com uma companhia Russo-Italiana que queria abrir filiais no golfo.

"Um jatinho particular da empresa levou o príncipe Saud, mas não pousou em Roma. Pousou em Riyadh", diz Khaled. "A agência de inteligência saudita tinha inventado a operação toda", afirma. "Seu destino é o mesmo que o de Turki: uma prisão clandestina".

Exílio

Já o príncipe Sultan, que estava acima na hierarquia da família real, vivia entre a cadeia e a prisão domiciliar. Mas quando sua saúde começou a se deteriorar, em 2010, ele recebeu permissão para buscar tratamento médico em Boston, nos EUA.

Na segurança do exílio, ele entrou com uma ação criminal na justiça da Suíça acusando o príncipe Abdulaziz e o xeque Saleh al-Sheikh de responsabilidade por seu sequestro em 2003.

Seu advogado americano, Clyde Bergstresser, conseguiu sua ficha médica de um hospital em Riyadh, onde Sultan havia sido admitido em 2003. O documento atestava que um tubo havia sido colocado em sua boca para ajudá-lo a respirar enquanto estava anestesiado, e que um dos lados de seu diafragma estava paralisado como resultado do ataque.

Foi a primeira vez que um membro importante da realeza entrou com uma ação criminal contra outro familiar, ainda por cima em uma corte ocidental.

Bergstresser diz, no entanto, que as autoridades suíças mostraram pouco interesse no caso.

"Nada foi feito para investigar o que aconteceu no aeroporto", diz ele. "Quem eram os pilotos? Quais eram os planos de vôo quando esses aviões da Arábia Saudita chegaram? O rapto aconteceu em solo suíço e é de se imaginar que haveria interesse em descobrir o que aconteceu."

Em janeiro de 2016, Sultan estava em Paris e foi convencido a embarcar em um avião.

Ele planejava visitar seu pai – que também era crítico ao governo saudita – no Cairo, quando o consulado da Arábia Saudita ofereceu um jato particular a ele e seus 18 acompanhantes – incluindo um médico, enfermeiras e seguranças dos EUA e da Europa.

Apesar do que havia acontecido com ele em 2003, Sultan aceitou. Dois de seus acompanhantes contaram o que aconteceu em seguida – mas pediram para não serem identificados.

"Era um avião enorme. Foi estranho porque havia muitos tripulantes a bordo, todos homens", diz um deles.

O avião decolou com os monitores dizendo que o destino era o Cairo. Mas depois de cerca de duas horas no ar, os monitores apagaram.

O príncipe Sultan estava dormindo em seu compartimento privado, mas acordou uma hora antes do pouso. "Ele olhou pela janela e ficou ansioso", descreve um dos acompanhantes.

Quando ficou evidente que estavam prestes a pousar na Arábia Saudita, Sultan começou a socar a porta da cabine do piloto e gritar por ajuda. Um tripulante mandou os funcionários do príncipe permanecerem em seus assentos.

"Olhamos pela janela e vimos um grupo de pessoas com rifles cercar o avião", diz um dos funcionários.

De acordo com os relatos, os soldados e os tripulantes arrastaram Sultan para fora do avião. Ele gritava para que seus funcionários ligassem para a embaixada americana.

O príncipe e seus médicos foram levados para uma vila e ficaram sob vigilância armada. Os outros aguardavam no avião, nervosos. Depois foram levados para um hotel, onde ficam presos por três dias sem passaportes ou acesso a telefone. Mais tarde, receberam permissão para tomar um vôo para o destino que desejassem.

Antes de saírem, um oficial saudita, reconhecido como um dos "tripulantes" do vôo, pediu desculpas. "Ele disse que estávamos no lugar errado na hora errada. E que ele sentia muito pelo inconveniente", diz o servidor.

O outro funcionário complementa: "Não foi um inconveniente, eu fui sequestrado! Fui preso contra a minha vontade em um país para o qual eu não queria ir."

Foi uma situação excepcional: 18 estrangeiros tinham sido raptados, levados para a Arábia Saudita e mantidos sob a guarda de militares.

Depois desse evento, não houve mais notícias do príncipe Sultan.

Questionado pela reportagem, o governo da Arábia Saudita preferiu não comentar.


O príncipe Khaled, que atualmente está exilado na Alemanhã, tem medo de também ser forçado a retornar à Riyadh. "Havia quatro membros da família real na Europa. Todos nós criticávamos a família e a maneira como ela governava nosso país. Três foram sequestrados. Sou o único que sobrou", diz ele.

"Tenho certeza que sou o próximo da lista. Se pudessem me sequestrar, já o teriam feito. Eu não tenho liberdade, preciso ser cauteloso o tempo todo."



BBC.


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