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As lembranças das restrições impostas pela Igreja Ministério Verbo Vivo, em São Joaquim de Bicas, ainda causam sofrimento a uma ex-integrante, entrevistada nesta quinta-feira (27) pelo G1. Conversas não são permitidas sem um observador. Os casamentos são arranjados entre membros. O sexo entre casados tem que ser autorizado pela instituição. A mulher, que pediu para não ser identificada, ainda tem medo da igreja mesmo depois de sua saída, há nove anos.
Reportagens da agência de notícias Associated Press denunciaram que a igreja Word of Faith Fellowship, Associação da Palavra da Fé, em português, submeteu 16 brasileiros a trabalho escravo. As histórias vieram à tona em uma investigação sobre a instituição, sediada na Carolina do Norte, nos Estados Unidos.
Em Minas Gerais, a filial da instituição norte-americana é a Igreja Ministério Verbo Vivo, investigada pelo Ministério Público Estadual desde 2009. Em setembro daquele ano, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) promoveu audiências para ouvir vítimas que denunciaram agressões físicas e psicológicas a membros e estudantes de uma escola mantida pela entidade. Esta mulher participou de uma das audiências e consta como uma das vítimas nos documentos que deputados entregaram à Justiça.
G1 tenta contato com a Igreja Ministério Verbo Vivo desde a última terça-feira (25), mas nenhuma ligação foi atendida.
A mulher, que hoje passa dos 70 anos, chora durante toda a entrevista exclusiva ao G1. As lembranças ainda são fortes e ela não consegue conversar sobre a Verbo Vivo sem se emocionar.
A ex-integrante conta que conheceu a Igreja Verbo Vivo em Belo Horizonte, antes de a instituição, originada nos Estados Unidos, estabelecer uma filial em São Joaquim de Bicas, na Região Metropolitana da capital mineira.
“A gente gostava da igreja, gostava quando os americanos vinham, dos louvores, a gente achava tudo maravilhoso”.
A mulher conta que um pastor norte-americano comprou uma fazenda em Betim, também na Grande BH, e a dividiu em lotes. Esses terrenos foram vendidos para fiéis por R$ 35 mil cada um, mas nenhuma escritura foi entregue.
A igreja impõe muitas restrições, segundo a ex-integrante. Entre os “pecados” considerados pela instituição estão andar com as mãos nos bolsos, assistir à televisão, ouvir rádio, frequentar cinema, academia ou clube, beber guaraná porque a cor da bebida se assemelha à cerveja e participar de festas, mesmo em família.
Sobre a rotina rígida exigida pela Verbo Vivo, a mulher se lembra das obrigações. “Tinha que dar dízimo, era obrigada a ir no bazar, era obrigada a ir nos cultos de segunda a segunda. Não podia fazer nada. Se você fosse no médico, você tinha que ir alguém com você."

'Quarto do diabo'

Esta mulher se lembra de um episódio em que sofreu difamação e foi levada para uma reunião com pastores em um cômodo onde eram feitas as “correções”. Ela chamou o lugar de “quarto do diabo”.
A ex-integrante conta que foi levada para este lugar, onde estavam lideranças da igreja, porque uma outra fiel tinha dito que ela havia conversado particularmente com outro membro, o que é proibido. A princípio, os líderes não deixaram que a filha a acompanhasse na reunião, mas a jovem "entrou na marra", conforme descreveu a mulher. Duas das lideranças que participaram desta "correção" eram médicos.
Ela conta que a pastora falava apontando o dedo na cara dela, chamando-a de fofoqueira. Ela começou a passar mal e foi atendida pelos médicos presentes. A filha dela, então, fez ameaças e disse que se alguma coisa acontecesse à mãe, ela iria denunciar todo mundo. Um dos médicos se recusou a continuar o interrogatório e disse a uma outra médica, segundo a ex-integrante, “olha, eu estou fora, se essa senhora morrer, a culpada é você. Eu não assino o atestado”.
No dia seguinte à confusão, o pastor norte-americano a procurou e disse que ela precisava pedir perdão diante da igreja. “Aí eu peguei e xinguei ele todo. Falei com ele ‘você vai pro inferno com a sua igreja que eu nunca mais volto aí. Nem eu nem minha filha. Nunca mais vamos voltar aí. Vai pro inferno. Você veio pra cá só para destruir famílias, destruir famílias e tomar o dinheiro dos outros’. Agora diz que ele tem uma mansão aqui. A igreja está vazia”, relembra.

Maus-tratos

Apesar de nunca ter visto maus-tratos, a mulher conta que presenciou, em 2009, depoimentos de vítimas de abusos e violência na audiência pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais.
“Nunca vi [cenas de maus-tratos] porque era escondido. Mas no dia da audiência pública lá, as crianças que já não eram mais crianças contaram tudo. Aí é que eu ouvi coisas assim, muito pesadas. Eles faziam tudo escondido e não podia contar pra ninguém”.
Ela diz que algumas pessoas que estavam na audiência relataram que, quando crianças, apanharam dentro da igreja. De acordo com a Comissão de Direitos Humanos, que acompanhou os depoimentos, vítimas disseram que era usada uma vara para bater nas crianças.
A mulher, que tem parentes e conhecidos ainda na congregação, conta que tem medo e diz que não pode falar mais detalhes sobre o que ouviu.

A vida fora da Igreja Verbo Vivo

Sobre a vida após a saída da Verbo Vivo, a mulher chora e fala da tristeza de ainda ter parentes na igreja.
“É muito triste porque a gente sente abandonada. A gente sente, assim, um lixo porque todo mundo gelou a gente. Já pensou você perder uma filha? Netos? Eu adorava eles. Fui perder tudo. Meu marido teve um AVC, teve câncer de próstata, não visitam, não procuram, não fazem nada. Então, você sofre o dia inteiro. A gente não pode ter contato”.
Perguntada sobre se ainda tem esperanças de que as coisas que aconteciam dentro da igreja sejam reveladas, ela responde que é um sonho.
“É o meu sonho. A gente torce muito pelas pessoas boas lá. Muitas velhinhas, muitas pessoas que não sabem nada o que acontece. Eles não podem conversar e, se contar, eles não acreditam. Você pode falar com eles que eles não acreditam. (...) Se você chegar perto de qualquer um, falam que [a igreja] é uma maravilha. Eles são 'tudo lavado', lavagem cerebral”.

G1.

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