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Oficialmente, a Coreia do Norte não dispõe de armas químicas e biológicas – do tipo do agente nervoso VX utilizado para matar Kim Jong-nam, o meio-irmão do líder supremo que foi vítima de um ataque surpresa no aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia. Oficiosamente, o regime de Pyongyang é o detentor do terceiro maior arsenal desse tipo de armamento do mundo, atrás dos Estados Unidos e da Rússia: estima-se que o país tenha armazenado entre 2500 a cinco mil toneladas de substâncias químicas a agentes biológicos capazes de desencadear surtos e epidemias de varíola, cólera e até uma forma de peste.
O grau de alerta mundial com os riscos representados pelo arsenal desconhecido que estará à disposição do temperamental e implacável Kim Jong-un disparou esta sexta-feira, após a confirmação de que o envenenamento do seu meio-irmão se ficou a dever a uma substância altamente tóxica, que está proibida pela Convenção de Armas Químicas e efetivamente recai na classificação de arma de destruição maciça das Nações Unidas. O agente nervoso VX foi utilizado por Saddam Hussein na guerra Irão-Iraque da década de 1980, e pelo líder do culto japonês Aum Shinrikyo, num ataque em Osaka em 1994.
Desde que subiu ao poder, Kim Jong-un tem-se esforçado para mostrar ao mundo o seu poderio militar atômico, com a realização de testes nucleares e ensaios com mísseis balísticos de médio e longo alcance (o último dos quais há duas semanas). Mas o líder supremo não faz a mesma fanfarra a respeito das suas capacidades químicas e biológicas; aliás, o regime de Pyongyang desmente sucessivamente as informações que dão conta da existência de pelo menos 11 unidades de produção e armazenamento e 13 laboratórios de investigação ativos.
A existência dessas unidades tem vindo a ser documentada pelo ministério da Defesa da Coreia do Sul desde a década de 80, em sucessivos relatórios cujo conteúdo tem sido também confirmado por inúmeras organizações internacionais como a Nuclear Threat Initiative. Segundo os dados recolhidos pelo país vizinho, o arsenal de Pyongyang inclui 16 tipos de agentes nervosos (como o VX ou o gás sarin), 13 tipos de armas biológicas (como antraz e peste bubônica) e ainda agentes sufocantes e outros químicos letais que atuam sobre o sangue (arsênicos ou cianetos), a pele e mucosas (gás mostarda).
“A Coreia do Norte tem capacidade de produção e distribuição efetiva de quantidades e variedades significativas de armas químicas através da península coreana. Poderá estar em condições de armar 150 mísseis balísticos com ogivas químicas. Terá, ainda, a habilidade de usar estas armas no resto do mundo, recorrendo a métodos pouco convencionais”, escreveu em 2013 o analista Joseph Bermudez Jr, no credível site 38North do US-Korea Institute.
A investigação da Malásia leva o trilho diretamente a Kim Jong-un, que nega qualquer responsabilidade no assassínio do seu renegado meio-irmão (a morte foi atribuída por Pyongyang a ataque cardíaco). Vestígios do agente nervoso VX foram encontrados nos olhos e face de Kim Jong-nam, que terá morrido paralisado por asfixia, confirmaram os exames forenses e as análises do Centro para as Armas Químicas do departamento de polícia da Malásia.
Ao contrário de outros agentes químicos desenvolvidos como pesticidas, o VX não tem qualquer uso não-militar. Sem odor nem sabor, pode ser aplicado na forma líquida ou de vapor. Nesse caso, os sintomas surgem segundos depois da exposição e habitualmente são fatais. O químico inibe o funcionamento de uma enzima que atua no neurotransmissor que controla a respiração e os movimentos do diafragma: sem essa enzima, os tecidos são super-estimulados, provocando a paralisia respiratória.
Apesar de matar muito rapidamente, o VX é, de todos os agentes nervosos, o que mais tempo persiste no ambiente, o que o torna ainda mais perigoso. De evaporação lenta, a sua libertação num movimentado terminal de aeroporto pôs em risco milhares de pessoas (em doses não letais, o gás pode acelerar o ritmo cardíaco e deturpar a visão, causar náusea, diarreia, dor, fraqueza e confusão). Por enquanto, as autoridades malaias desconhecem outros casos de exposição ao agente nervoso além da vítima, Kim Jong-nam, e das duas mulheres detidas pelo ataque – uma indonésia e uma vietnamita, que terão exibido alguns sintomas. Um terceiro suspeito, um especialista em química com passaporte norte-coreano, também está detido.
O Governo de Kuala Lumpur tem procedido com cautela atendendo à gravidade do caso e o seu potencial de instabilidade regional. A morte de Kim Jong-nam tem todos os contornos de um assassínio político e não de um ato justificado de legítima defesa ou de uso da força em contexto de conflito militar – não só não existe indício de que a vítima se preparasse para atacar, como a Malásia e a Coreia do Norte não estão em guerra.
A piorar a situação, e adensar a crise diplomática, o crime envolve o uso de armas de destruição em território estrangeiro. A Coreia do Norte é uma das seis nações do mundo que não ratificaram a Convenção de Armas Químicas, que foi subscrita em 1993 e proíbe o desenvolvimento, produção, armazenamento, retenção e transferência deste tipo de armamento (e só entrou em vigor em 1997). Mas Pyongyang reconhece a Convenção de Genebra, que proíbe o uso de armas químicas em acções militares.
“Além dos recentes progressos da Coreia do Norte em termos de desenvolvimento de capacidades balísticas e nucleares, este ataque envia outro poderoso sinal sobre o alcance militar do regime e a sua disposição de usar armas em solo estrangeiro”, disse à CNN Corey Wallace, especialista em política de segurança na Ásia. “Este caso vai muito além da tradicional questão da ‘dissuasão’  de inimigos externos que justifica o desenvolvimento do programa nuclear da Coreia do Norte”, considerou.
Para a especialista em proliferação nuclear do Middlebury Institute of International Studies, Melissa Hanham, a mensagem que Kim Jong-un pretende passar com o brutal assassínio do meio-irmão tem como destinatários potenciais desertores ou conspiradores: o líder provou que nada o detém quando se propõe eliminar um inimigo ou rival, nem a lei internacional, nem a segurança de milhares de inocentes, disse ao The Guardian.
O caso deixa ainda a comunidade internacional em sobressalto. As resoluções e sanções aplicadas contra Pyongyang não tiveram, por enquanto, o desejado efeito de travão nas ambições nucleares de Kim Jong-un. O líder norte-coreano, que acaba de subir a parada, dificilmente será convencido a abdicar do seu arsenal químico.







Público.

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