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O mundo das próximas décadas será, em múltiplos aspetos, muito diferente do presente. Não se trata apenas de evoluções rápidas, mas também de mutações estruturais profundas e duradouras. É neste contexto de quase convulsão transformadora que a presidência pouco esclarecida de Donald Trump está prestes a introduzir adicionais instabilidades globais bastante sensíveis, que podem reorientar os poderes do séc. XXI.
As questões mais perturbantes não são necessariamente as mais mediáticas ou aparatosas. Por exemplo, é verdade que a Coreia do Norte é já uma potência nuclear e que ruidosamente acaba de coagir o mundo com um novo teste de um míssil sobre o mar do Japão. Mas o míssil em causa, um Musudan de médio alcance, apenas preocupou mais porque foi aproveitado para testar tecnologias que depois poderão ser utilizadas em mísseis balísticos intercontinentais, como o Taepodong-3. Contudo, nenhum país, nem mesmo a China, apoia genuinamente a Coreia do Norte, e quase todos, perdendo a paciência, tentam evitar o colapso da Coreia do Norte. Mas se esta efetuar um ataque real o seu regime será obliterado de imediato.
A Europa e a NATO “redescobriram” erradamente que a Rússia é o seu grande inimigo, mas esta ingenua percepção ilustra a desorientação estratégica do nosso continente. Não, a Rússia não será o nosso grande inimigo e, pelo contrário, nos próximos cinco a sete anos temos que a “integrar” construtivamente, o que é menos difícil do que poderá supor-se. Mas vários novos inimigos e diversos conflitos muito graves poderão surgir em várias regiões do mundo, inclusive bem perto da Europa. O terrorismo extremista islâmico e armas de destruição maciça trarão assustadores novos riscos, inclusive no interior de países europeus. Mesmo os já vulgares drones e a Internet of Things originarão situações muito graves. O mundo irá tornar-se mais perigoso. No futuro não longínquo bem necessitaremos de ter a Rússia e a China convergentes connosco, não o oposto. Os tiques ideológicos e os ódios do passado não podem dominar a inteligência do nosso futuro.
Mesmo que (como suponho) Donald Trump não resista até final do seu mandato, deixará efeitos instabilizadores. A reorientação das atenções norte-americanas para o interior do seu país poderá, para muitos, parecer algo benéfico. Em alguns aspetos sê-lo-á, mas noutros poderá acentuar uma maior e mais perigosa complexidade no mundo. Os Estados Unidos são o único país que é uma potência militar global. Tem cerca de 800 bases militares em mais de 70 países e um alcance planetário. Para quem deteste esse país, este cenário é temível. Mas se esta implantação for rapidamente alterada criar-se-ão vazios de poder em certas regiões do mundo que serão ocupados por interesses perigosos.
Um vazio de proteção norte-americana na Ásia oriental e no Pacífico norte poderia induzir a nuclearização do Japão e da Coreia do Sul e, criticamente, em Taiwan. A China poderia ocupar irreversivelmente, durante muitas décadas, um poder hegemónico em toda a região, que poderia ser negativo neste grande país que, de outro modo, tenderá a moderar-se com exceção dos contenciosos territoriais nas Ilhas Spratly, Senkaku e Paracel. A questão do Tibete está, sem que a opinião pública se aperceba, realmente acordada nos bastidores há vários anos. Mas a generalidade dos países do Sudeste Asiático temeria um maior poder regional da China se não sentisse a sobra protetora americana. O resultado seria uma corrida armamentista em toda a região, com reflexos (por motivos indiretos) na Índia e no Paquistão. Semelhantemente, um esbatimento do empenho dos EUA no Médio Oriente numa fase de incerteza do programa nuclear do Irão (país que a maioria dos árabes detesta) poderia produzir a nuclearização de países como a Arábia Saudita, que a prazo poderia ser bastante perigosa.
Contudo, a Ordem Mundial é muitíssimo mais do que a correlação entre estratégias de poder formal e força militar. Ideias e valores estão em preocupante crise. Os impactos ambientais de potencial instabilizador transcenderão largamente as questões climáticas.
O poder será sempre (excessivamente) condicionado pela força financeira e esta decorre da vitalidade das economias. As próximas décadas alterarão avassaladoramente a geografia do crescimento econômico e da prosperidade no mundo. E com essa redistribuição de riqueza mudarão as correlações globais. É neste fator, muito mais que no plano do poder formal ou militar, que assentará a próxima Ordem Mundial, que será muito mais multipolarizada que a atual e muito diferente.
Em 2017 e 2018 a economia da Zona Euro, já em crescimento fraco em 2016, crescerá ainda um pouco menos, cerca de 1,6%, mas as economias em desenvolvimento crescerão ao triplo da velocidade da Zona Euro e as da Ásia em desenvolvimento crescerão a um ritmo quádruplo. A União Europeia dos discursos do “europeísmo” fundamentalista e pouco inteligente continua a viver em absoluta negação das realidades ao recusar ver pedagogicamente que é a única importante região do mundo com tão fraco desempenho econômico. A criação de prosperidade, bem como o consequente poder que ela induz, estão a afastar-se da Europa para o Pacífico. Em parte por miopia estratégica dos europeus.
O abandono pelos Estados Unidos da Parceria Transpacífico, um gigantesco espaço de integração comercial que corresponderia a 40% da economia do planeta, é um erro tremendo de Trump. A médio prazo, esse erro será significativamente oneroso para os cidadãos norte-americanos. Mas a China, que representará neste ano mais de um terço do crescimento da economia de todo o mundo, beneficiará na Ásia e em diversos países das Américas com esse disparate de Trump.
Estes são apenas singelos exemplos entre muitos outros que este texto, se com espaço ilimitado, poderia referir, ilustrando aquilo que, subterraneamente, se configura já como uma matriz de poderosas dinâmicas que reconfigurarão a Ordem Mundial das próximas décadas, ainda mais complexa e, infelizmente, mais perturbante que a do presente.





Público.

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