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A água deixou de correr nas torneiras de Damasco há duas semanas, precisamente no dia em que o Presidente Bashar al-Assad saboreava a sua vitória final sobre os rebeldes na batalha de Alepo. Desde então, a guerra que o regime sírio tem conseguido manter quase sempre à distância faz-se sentir com maior dureza na vida dos quatro milhões de habitantes da capital, onde a água engarrafada duplicou de preço e os residentes esperam horas em filas para se abastecerem em caminhões cisternas ou nos poços disponíveis.
“Quando a água chega às torneiras a nossa alegria é a mesma de uma mãe que tem um filho depois de dez meninas”, ironiza Nour, uma habitante da capital, ouvida pela CNN. Em sua casa, como por toda a capital, a água passou a ser um bem mais precioso do que ouro, gasto a conta-gotas e só para o que é essencial. “Deixei de lavar a casa, de lavar os pratos e as roupas, já ninguém toma banho”, confirmou à AP Mona Maqssoud, outra mãe de família da cidade.
Cerca de 70% da água consumida em Damasco tem origem no Wadi Barada, um vale nas montanhas a noroeste de Damasco onde nasce o rio que atravessa a capital. A zona é controlada desde 2012 pelos rebeldes, mas havia um entendimento entre o regime e os opositores para que o abastecimento de água à capital não fosse posto em causa. A situação mudou drasticamente no dia 22 de Dezembro, sem que qualquer dos lados assuma a culpa pela água que deixou de chegar às torneiras e pelos combates que ameaçam o cessar-fogo no país, em vigor há uma semana.
O Governo sírio acusa os rebeldes de terem contaminado as nascentes de água com gasolina, o que obrigou os serviços de distribuição a suspender o fornecimento à região de Damasco. A rebelião pôs a circular imagens da estação de tratamento de Ain al-Fijah, junto à nascente do rio, mostrando danos na estrutura que diz terem sido provocados por ataques aéreos. Alega que as bombas destruíram o sistema de controlo elétrico da estação, inutilizando-a. O Gabinete de Coordenação Humanitária das Nações Unidas afirma que os estragos causados na rede de abastecimento foram “deliberados”, só não disse por quem.
O que é certo é que Wadi Barada, que antes da guerra era um destino popular dos habitantes de Damasco para passear e pescar, se transformou num campo de batalha na mesma altura em que as armas se silenciavam no resto do país. O Exército diz que a zona é controlada pela Fatah al-Sham, o braço sírio da Al-Qaeda, que não está abrangido pela trégua, negociada sob a égide da Rússia e da Turquia. E só admite travar a ofensiva em curso – que conta com o apoio da aviação russa no ar e de milicianos do Hezbollah libanês em terra – quando conseguir controlar o sistema de abastecimento de água.
Os rebeldes negam a presença de jihadistas na zona e no início da semana ameaçaram boicotar as negociações patrocinadas por Moscou se a ofensiva contra Wadi Barada não cessar. Um aviso repetido pela Turquia, aliada dos rebeldes, sem grande sucesso – segundo o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, só nas últimas 24 horas o Exército lançou “dezenas de ataques aéreos” contra posições rebeldes, matando um combatente.
Para minorar a crise, o Governo pôs a circular caminhões-cisterna pelos bairros de Damasco, mas as remessas são insuficientes e muitos residentes têm de recorrer a vendedores privados ou aos poços existentes na cidade – cerca de 200 foram reparados nos últimos anos com a ajuda da ONU. Nem sempre há garantias de que a água que compram é potável, o que já levou a UNICEF a alertar para o risco do aumento de doenças gastrointestinais, sobretudo nas crianças.
Uma situação que não é comparável à que se vive noutras cidades do país mais diretamente atingidas pela guerra – “nada nos prepara para aquilo que vimos” no Leste de Alepo, disse na véspera o coordenador humanitário da ONU na Síria de regresso dos bairros que estiveram sob controlo da oposição. Mas a falta de água agrava em muito as condições de vida numa cidade que quase duplicou a sua população desde o início do conflito, em 2011, a braços com uma inflação que o Inverno agravou e com as muitas dificuldades trazidas pela guerra. “Nós costumávamos queixar-nos dos cortes de energia, disse à agência AFP Faiz, um funcionário público da capital. “Mas agora percebemos que isso não era nada comparado com a falta de água potável. A água é vida.”





Público.

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