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Os sinais são de que, finalmente, os parâmetros morais do século 20 começam a ceder. E, sim, para quem ainda opera segundo eles, parece que estamos entrando em uma época mais “careta”. Mas é apenas o binarismo do século passado colapsando.
Duas, hm, polêmicas recentes mostraram que entender o “significado moral” das coisas está menos óbvio e linear – e isso é bom. Uma delas foi o surpreendente surgimento da “globeleza” vestida neste ano.
Um dos símbolos mais abusivos da televisão, há 26 anos era a imagem de uma mulher negra nua, coberta por maquiagem e efeitos especiais, simbolizando a “sensualidade” do carnaval brasileiro. Para cúmulo da caricatura, o então “mago” dos efeitos visuais da emissora, o alemão-austríaco Hans Donner, casou-se com a imagem, a modelo negra Valéria Valenssa.
Acontece que, já alguns anos, o feminismo negro vinha atacando esse clichê carnavalesco, de alcance só comparável, talvez, ao especial anual de Roberto Carlos. Ou seja, a globeleza surgir vestida é mais ou menos como Roberto fazer um especial de repentismo de duplo sentido, a negação do significado dele mesmo.
Evidentemente não é o caso de “confiar” na correção política Globo. Ela não tem intenções boas nem más, tem pesquisas. Como também não é o caso de crer que seja uma concessão direta – como parte da esquerda saiu aventando – à eleição de um prefeito evangélico no Rio, por um lado. Ou ao movimento negro e ao feminismo, por outro.
Mesmo algumas especialistas no assunto, nessa matéria do jornal Nexo, são cautelosamente não-conclusivas. Até o humorista playba Rafinha Bastos, cheio das certezas, fez graça com o fato de… não ter certeza no caso. Eu diria que um componente do novo século, que finalmente se inicia, é não um neo-moralismo, ou neo-caretice, ou muito menos um neo-fascismo (ainda que isso exista), mas o que eu chamo de neo-severidade. A diferença é que se espera, nos contextos que envolvem sexualidade, um pouco mais de contenção, e um pouco menos de exuberância, sem que isso signifique conservadorismo político. É a falência da agenda comportamental do século que acabou.
Claro que há sinais do contrário, de que estaríamos vivendo uma espécie de paródia da explosão libertária da década de 1970. Em que um Liniker, por exemplo, se afirma como uma espécie de diluição rala de Ney Matogrosso mais Gal Costa mais Dzi Croquettes. Evidentemente, sem uma fração da potência deles. Que, na época certa, era produto de muito talento real, e da temperatura de um embate real. Agora é só uma espécie de banzo; como é banzo nos considerarmos sob uma ditadura política.
Lembremos que sequer aquela época pode ser totalmente glamurizada. Os artistas “fêmeos” de então (pensemos em Jagger, em Plant, mesmo em Bowie na fase L.A.) se dedicavam ao abuso consentido das groupies. A lógica (patriarcal) da liberação sexual chegou ao ponto de patrocinar uma forte defesa teórica e militante da pedofilia – como se crianças e abusadores de crianças estivessem em pé de igualdade, e pudesse haver “relações sexuais não-prejudiciais” entre eles, assim como “pornografia infantil saudável”.
Foi só ao longo dos anos 1980 que as organizações pedófilas foram sendo colocadas à parte dos movimentos gays em geral, e sofrendo forte oposição de movimentos feministas. Isso poderia ser confundido com moralismo à época, e era chamado assim mesmo. Eu, como Fúlvia Haroldo, prefiro chamar de bom-sensinho. Hoje, o ativismo pedófilo (não a cultura pedófila, que continua) é uma nota praticamente superada na história da humanidade.
Ainda assim, hoje temos por um lado uma bolha de liberdade meio caricata – onde os elogios ilusórios, de origem no meio transexual, falam sobre “arrasar” e “lacrar (o cu das inimigas)”. Mas também uma inesperada convergência entre uma população média “normal”, não-lacrativa, um tanto irritada com essa (hm) atitude que considera excessiva, e uma ala do assim chamado feminismo radical.
Já faz um tempo que essas feministas superaram qualquer receio de serem confundidas com conservadores, e se batem abertamente em temas como o combate à institucionalização da prostituição, e contra a infiltração de machos oportunistas em protestos nudistas como a Marcha das Vadias, por exemplo. E também contra o performismo factóide de figuras dúbias como o deputado Jean Wyllys e o desenhista Laerte. Esse, num episódio recente, chamou as moças que reclamavam da sua tentativa de protagonizar no dia da mulher de… “bucetistas”. Bastante adequado, vindo de uma “mulher de pênis”, que se pretende ainda mais mulher por isso (a foto acima é uma reprodução da publicada por ele mesmo nas redes sociais).
O outro episódio que gerou confusão foi o da apresentação de um projeto de lei por um deputado federal evangélico, proibindo o acesso a conteúdos pornográficos gratuitos na internet. Há aí dois enganos. Primeiro, o de desconsiderar que essa lei na verdade é, antes de mais nada, capitalista, porque preserva os conteúdos pagos (e não é mesmo impossível que seja de inspiração lobista).
Segundo, o de que essa seria uma “lei contra a masturbação”. Mesmo que o deputado tenha alegado isso, não há como proibir a masturbação. Na ausência de material pornográfico, ela é praticada com a imaginação mesmo. Ainda que possa ser considerada uma (não) sacanagem a perseguição à pornografia de várzea, à pornografia moleque, à pornografia de raiz, pelo menos um de seus efeitos colaterais seria positivo.
Ao contrário do que acham os imediatos proponentes de “punhetaços” de protesto contra a tal lei, a diminuição do acesso de jovens a conteúdo pornográfico diminuiria um pouco a enorme deseducação sexual que esse hábito significa. Com seus clichês patetas, como depilação total, ejaculação na face, sexo anal instantâneo e outros, a pornografia cria uma sexualidade masturbatória e desajeitada que está totalmente desconectada da experiência íntima entre pessoas reais.
Como diz outra amiga minha, “um deputado da bancada evangélica proibindo pornografia versus esquerdomachos propondo punhetaço é tipo uma hidra inútil de duas cabeças”, hediondas e complementares. É desse binarismo trouxa do século 20 que temos que superar o quanto antes. E estamos superando, assim como superamos o delírio patriarcal da pedofilia legal – ainda que o “outro lado”, como masculinistas e alguns partidários da teoria queer, tente manter essa exaltação sexual em pauta.






Yahoo.

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